Polícia Militar vai ocupar morro do Cajueiro para reprimir venda de crack

Ação da secretaria de Assistência Social recolheu 57 pessoas

O comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), Paulo Roberto, anunciou nesta sexta-feira que ocupará o morro do Cajueiro, em Madureira, na próxima semana. O objetivo é reprimir a venda de drogas no local, principalmente o crack. Segundo informações dos próprios usuários da droga, repassadas à agentes da secretaria municipal de Assistência Social, o morro passou a ter maior demanda desde que na comunidade do Jacarezinho foi proibida a venda destas pedras.

O coronel Paulo Roberto discorda deste fato por não haver uma informação oficial sobre a suspensão da venda de crack naquela comunidade da Zona Norte. Segundo ele, a operação que está programando não tem relação com esta "transferência". Ele entende que combatendo a venda da droga, reduzirá outros crimes na região como roubo de carro e a transeuntes.

"O uso de crack é um problema social, mas a Polícia Militar também tem a sua parcela de colaboração. Até mesmo para não deixar a população a mercê dos usuários.", explicou o comandante, há dois meses no comando do batalhão.

A PM participou nesta sexta-feira (13) de uma operação da secretaria municipal de Assistência Social que recolheu 57 usuários de crack no bairro de madureira. Mais de dez usuários, porém, escaparam da operação. Segundo o comandante do Batalhão, o número de recolhimentos não demonstra crescimento de usuários. "Não podemos nos deixar levar pelo que achamos. A quantidade de pessoas recolhidas tem sido a mesma. Por isso, não acredito que tenha havido uma migração", diz Paulo Roberto.

Entre os recolhidos, além de usuários, havia também moradores de rua que não usam o crack. Foram 45 homens, 11 mulheres e um menor de 17 anos. Os 30 agentes da secretaria atuaram na linha do trem, na calçada da Avenida Edgard Romero e em uma casa abandonada, na mesma rua.

Ninguém foi flagrado consumindo a droga. Nenhum dos recolhidos foi encaminhado à delegacia. Todos foram para o abrigo da prefeitura do Rio, em Paciência, na Zona Oeste da cidade. Desde o início das operações, em 2011, foram recolhidas 674 pessoas, dentre elas 69 crianças.

- Nosso trabalho é dar uma palavra ao usuário de drogas. Muitos veem que nosso trabalho como de enxugar gelo, mas precisamos fazer justamente isso, conversar, convencer e recolher - alegou o coordenador da operação de combate ao crack, Claudio Reis. Cerca de 25% das pessoas que são recolhidas ficam nos abrigos.

Traficantes suspendem venda de crack no Jacarezinho

Em meados de junho, traficantes da Favela do Jacarezinho, no Jacaré, subúrbio do Rio, ordenaram a suspensão da venda de crack na comunidade, considerada a maior cracolândia da cidade. A determinação, alega-se, foi motivada pelos problemas que os viciados causavam na região, devido ao alto poder alucinógeno da droga. Rumores dão conta também de que os traficantes estariam preocupados com a possibilidade de ocupação da região pela Força de Segurança Nacional.

Usuário comemora

Entre os usuários encontrados pela operação, alguns até comemoraram. Na Av. Edgar Romero, J. H. M., de 25 anos, se ofereceu para ser levado. "Quero me livrar da droga, mas sei que preciso de ajuda". O jovem é dependente químico desde os 12, mas o uso do crack se deu a partir dos 18. "Cliente" do morro Cajueiro, ele começou com a maconha e depois experimentou outros tipos de entorpecentes até chegar à droga da morte. Apesar de se dizer "total flex", J. H. M. tem preferência pela maconha , mas no dia-a-dia "fumo o que tiver", confessa.

Com 18 anos, foi expulso de casa pela mãe que não aceitou a situação em que seu filho estava. "Nenhuma mãe aceita, mas ela teve que aceitar", contou o usuário, que entre 12 e 18 anos consumiu drogas ainda morando com a família. 

Mesmo vivendo na rua, J.H.M. garante que nunca precisou roubar ou cometer crimes para sustentar o seu vício. "Peço dinheiro na porta do restaurante popular. Conto uma história. Digo que é para comida."

Usuário azarado

A sorte já não foi tão grande para J. C. S. S.. No momento em que as equipes da secretaria chegaram, ele tentou correr e acabou cortando o pé. Aos 28 anos, é a segunda vez que o "recolhem". Usuário de crack desde os 24, ele também começou pela maconha aos 18. "As drogas iam ficando fracas e eu experimentava uma diferente".

Ele quer largar a droga e acredita que pode ser uma pessoa com emprego fixo se tiver uma chance. Reconhece que precisa de força de vontade:

"Não adianta só o tratamento, tem que ser pela gente".

J. tem casa em Curicica, onde mora com a avó e primo, mas já morou nas comunidades de Antares (Santa Cruz), Mandela e Manguinhos (ambas em Benfica). Longe de casa há mais de uma semana, J. diz sentir saudade dos familiares. Com o filho de três anos, não tem contato, pois ele mora com sua ex-mulher em Honório Gurgel.

"Às vezes perco a noção do tempo. Vemos o pôr do sol, mas o efeito da droga vai fazendo a gente ficar e quando bate a saudade da família, vemos que já perdemos muito do tempo que poderíamos estar com eles". Ele lembra ainda os momentos que passou em casa. "Fiquei duas semanas em casa e engordei, fiquei bonito e agora voltei a ficar assim.". 

Para manter seu vício, J. faz bicos, vende água no sinal de trânsito e pede dinheiro na rua. Já tem passado no crime. Ele mesmo admite que matou uma pessoa por vingança em Antares e, por isso, não passa por lá. Jamais, porém, foi preso.

"Tentei fugir das equipes por causa disso. O abrigo é perto do local onde eu morava. Matei uma pessoa que atirou nas pernas no meu irmão. Depois disso nunca mais voltei".

J. diz que já foi dono de favela, participando ativamente da venda de drogas. Ele se considera uma pessoa de boa família, que não tem medo de ser ruim. "Se pedem a mim para bater em uma pessoa, eu vou bater até matar. Não tenho limite".

Religioso, carregando um fio de contas em seu pescoço, ele agradece a Deus por sair do tráfico de drogas, já que se livrou do perigo diário de um confronto policia. O lado ruim é o "de estar neste estado".