Disputa eleitoral no Jockey Club do Rio coloca em jogo futuro do turfe no Brasil

A quase dois meses de suas eleições, o Jockey Club Brasileiro vive um momento de ruptura em seu quadro social. Vencedor do pleito de 2008 por uma pequena margem de votos, o empresário Luis Eduardo Carvalho tenta ser reeleito apoiado em quatro anos de reestruturação que deu novo fôlego às combalidas finanças da instituição. Do outro lado está o engenheiro Carlos Palermo, ex-presidente da Sociedade Hípica Brasileira e dono do apoio quase unânime das pessoas ligadas ao turfe. 

Além do tradicional tiroteio entre oposição e situação, característico de qualquer clube com um quadro social assíduo, se esconde por trás disputa eleitoral uma questão bem mais grave: o futuro das corridas de cavalo no Brasil. Hoje, o Jockey Club é o principal pilar nacional do turfe, um esporte que luta contra sua queda de popularidade e os altos custos de manutenção enfrentados por seus praticantes.

"Eu reformei a pista de corrida, que antes estava cheia de buracos e fez com que vários cavalos se machucassem e tivessem que ser sacrificados. Na minha administração, também trocamos o starting gate (portões automáticos que se abrem quando a disputa começa), que era antigo e vinha apresentando problemas. 

A máquina que registra a chegada dos cavalos também foi trocada", lembra Carvalho, que comemora o lucro de R$ 6 milhões obtido em 2011. Hoje, o clube tem cerca de R$ 15 milhões em caixa, situação bem diferente do começo da década de 2000, quando acumulava saldos negativos.

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"Eu sou um administrador. Eu vejo onde temos gastos em excesso e os corto. Cortei algumas coisas no turfe sim, mas não há omelete sem ovos", afirma o presidente do Jockey.

No entanto, uma pergunta não quer calar: se Carvalho fez tantas melhorias para o turfe, por que seus praticantes e funcionários ligados à atividade não o veem com bons olhos?

"Eu, honestamente, não sei a resposta para essa pergunta. Dou R$ 1 milhão para quem conseguir respondê-la", ironiza.

O esboço de uma resposta vem de dentro do próprio Jockey, mais exatamente das vilas hípicas do clube. Presidente da Associação Carioca dos Proprietários do Cavalo Puro-Sangue Inglês, Luiz Octavio Manes Figueiredo simboliza a insatisfação dos turfistas com a administração atual. 

"O Luis Eduardo Carvalho realmente fez algumas melhorias no turfe, mas mesmo elas são questionáveis em alguns pontos. Na reforma da pista, alguns dos nossos conselhos poderiam tê-la deixado bem melhor, mas nós fomos ignorados pela presidência", aponta o Luiz Octavio Manes Figueiredo, presidente da Associação Carioca dos Proprietários do Cavalo Puro-Sangue Inglês. "O grande problema desta gestão é que somos um clube destinado à prática do turfe cujo presidente não entende de turfe, só de finanças. Não questiono o sucesso dele como empresário, apenas a falta de capacidade para gerir algo que ele não compreende. Seu único objetivo é conquistar receitas e abater dívidas, não importa como".

Demolição da vila hípica

Durante a administração de Carvalho, além dos cortes do turfe, um projeto ligou o alerta dos defensores do esporte: a tentativa demolição da vila hípica do clube. Um dos seus principais patrimônios, a vila seria destruída para dar lugar a um empreendimento imobiliário da Odebrecht. Um conjunto de prédios comerciais seria erguido pela construtora, que teria o direito de administrá-los livremente por 30 anos em troca de um pagamento mensal de R$ 1,5 milhão para o Jockey.

Apesar de lucrativa para o clube, a proposta foi repudiada pelos criadores de cavalos e sócios. Com cerca de 2 mil baias, a vila hípica abriga 900 cavalos e mais de mil moradores. Se derrubada, além de expulsar antigos funcionários do Jockey, a ação ainda deixaria alguns proprietários sem ter onde alojar seus animais, já que as vagas nos centros de treinamento na Região Serrana são limitadas.

A repercussão negativa foi tão grande que o quadro social abriu um processo de impeachment contra Luis Eduardo Carvalho pela falta de transparência na negociação com a Odebrecht. Por fim, o prefeito Eduardo Paes baixou um decreto declarando as áreas destinadas ao turfe como áreas de proteção ambiental e cultural permanentes (Apac), impedindo a conclusão do projeto.

"Não houve qualquer sensibilidade do presidente ao conceber esse projeto. Os pequenos proprietários de cavalos teriam que abandonar o esporte, já que não teriam onde colocá-los, os funcionários seriam desalojados e demitidos e o clube perderia um dos seus principais patrimônios", contesta Luiz Octavio. "Essa tentativa de ceder espaço para um empreendimento da Odebrecht mostra uma atitude costumeira desta administração, que está terceirizando setores do clube quando poderia lucrar diretamente com eles".

Turfistas e funcionários também reclamam da intransigência da administração na demolição de um armazém destinado aos cavalos. Enquanto ainda se discutia a inclusão do armazém na área de proteção, a presidência ignorou uma liminar que pedia a paralisação de qualquer intervenção, após uma semana se esquivando de um mandado judicial, e finalizou a demolição. 

A busca incessante de receitas protagonizada por Luis Eduardo Carvalho tem uma explicação: de acordo com o presidente, a decadência do turfe como esporte transformou sua manutenção onerosa demais para o clube. Principal fonte de lucro do Jockey na primeira metade do século, as corridas de cavalo hoje consomem R$ 32 milhões por ano.

"Os turfistas não compreendem que o esporte perdeu espaço. É um fenômeno natural e que acontece no mundo inteiro. É inevitável. Não é só o Jockey do Rio que passa por isso, outros clubes do Brasil e do mundo vivem a mesma situação. E, mesmo cientes desta perda de popularidade, eles querem que o turfe mantenha o mesmo estilo e os mesmos benefícios de antigamente. É completamente incompatível", explica Carvalho. O presidente também admite que o Jockey Club perdeu o papel de principal referência da alta sociedade carioca. "Antigamente, a alta sociedade vinha aqui para se socializar nas corridas de cavalo. Agora, há cinemas, praias, shoppings e diversos outros lugares para fazer o mesmo. Todos os clubes, não só o Jockey, perderam a característica de serem os principais centros de socialização. E isso resulta em perda de receitas".

Mesmo com a queda vertiginosa no número de apostas e o desaparecimento do turfe do noticiário esportivo, seus praticantes creem que o Jockey ainda tem um papel a desempenhar no esporte.

"O Jockey deveria investir na promoção, divulgação e realização, para inicio de conversa, de um tour para conhecer o dia-a-dia do cavalo das cocheiras da Gávea. A atração deveria ser disponível para ciranças também. Isso já seria um grande ponto de partida", alega Luiz Fernando Dannemann, outro turfista insatisfeito com a administração de Carvalho. "A exploração do jogo de corrida de cavalo num país que não tem cassino e que as casas de bingo foram fechadas, apesar do apego que a população tem aos entretenimentos com apostas, não deveria ser uma tarefa difícil, muito pelo contrário".

Para Dannemann, que, assim como outros turfistas, vê na candidatura do oposicionista Carlos Palermo a esperança de mais investimentos no esporte, o Jockey Clube não é uma instituição decadente, mas apenas um gigante adomercido.

"O Jockey é apenas um gigante adormecido. Se você estalar os dedos de uma das mãos o glamour voltará a fazer parte do clube. O GP Brasil é uma das atrações mais importantes da cidade, e o clube, nesses tempos de grandes eventos mundiais, deve estar inserido neste contexto".