Sem bondinhos, comércio sofre com ruas vazias de Santa Teresa

Bares, restaurantes e artesãos são prejudicados pela falta de movimento no bairro - reflexo da paralisação dos bondes após acidente

O comércio em Santa Teresa, bairro turístico no Centro do Rio de Janeiro, padece depois da paralisação dos bondinhos. Cartões-postais da região, os veículos estão com a circulação suspensa desde o último dia 27, quando um acidente com o bonde nº 10, que fazia o trajeto Largo da Carioca-Dois Irmãos, deixou seis mortos e 57 feridos na rua Joaquim Murtinho, próximo ao número 250.

Tombados como patrimônio histórico da cidade, os bondinhos funcionam como um forte ponto turístico para o bairro.  Mais de duas semanas após a tragédia, moradores e comerciantes sofrem com a brusca queda de movimento na região. É o caso do artesão Getúlio Damado, dono do famoso Ateliê Chamego Bonzolândia, onde vende bonecos e réplicas dos famosos bondes, feitos através de materiais reciclados. Há 26 anos no bairro, ele conta que nunca viu o movimento nas ruas cair com esta dimensão.

“Cheguei a ficar quatro dias sem vender nada, coisa que nunca tinha acontecido” desabafou. “As minhas vendas caíram, no mínimo, em 50%, mas as despesas, por outro lado, não diminuíram. Dependo muito dos turistas, estou sofrendo demais com a falta do bonde”.

No lugar da promessa de um passeio no histórico bondinho, os turistas que visitam o bairro encontram a decepção. Sem saber que as linhas estão paralisadas, o mais perto que a espanhola Raquel Méndez Fernández chegou dos bondes foi ao comprar uma réplica em um bazar no Largo dos Guimarães.  

“Eu já tinha vindo ao Rio antes, e gostei muito da cidade”, contou a turista. “Mas desta vez, fiquei chateada porque não tive a oportunidade de andar de bondinho. Agora o jeito é fazer tudo a pé aqui em Santa Teresa”

Funcionária do bazar, Linda dos Santos reclamou do descaso da prefeitura em relação à manutenção dos serviços de transporte no bairro. Ela ressalta que quase todos que vivem do comércio no local precisam do turista, que deixou de visitar Santa Teresa depois da tragédia com o bondinho nº 10.

“A gente precisa muito do turista, mas parece que agora as pessoas estão com medo de vir para cá. Houve dias em que abrimos às 11h e fechamos às 19h e só vendemos R$ 5. É desanimador”, concluiu, acrescentando que o bairro está parecendo um “grande cemitério”.

No Largo dos Guimarães, coração do bairro, artesãos, funcionários do cinema Cine Lapa e de restaurantes que circulam a praça também mostram descontentamento. Dona Zila, artesão de 87 anos que vende tapetes e toalhas de juta no local lamenta a falta dos históricos bondes. “Santa Teresa é o bondinho, ele tem que voltar”.

“No sábado, era para as pessoas terem feito fila aqui fora, e você vê - o restaurante nem encheu. Dia de semana, então, esquece”, lamentou Jorge Fernandes, gerente do restaurante Sobrenatural, no Largo dos Guimarães. “A gente normalmente tem reserva de hotéis aqui, mas nem isso tivemos nestas duas últimas semanas. Mas vai melhorar, temos fé de que o bondinho vai voltar em breve”, completou, otimista.