Especialista: recrutas podem ter problemas de saúde durante o resto da vida

Grupo de mais de 70 aspirantes a fuzileiros navais foi internado com insuficiência renal e respiratória

Diante do relato de parentes dos recrutas da  Marinha internados no Hospital Naval Marcílio Dias, indicando que o grupo foi privado de beber água durante dois dias, especialistas ouvidos pelo Jornal do Brasil revelam que a submissão a exercícios físicos sem a ingestão de líquidos pode comprometer os rins dos aspirantes para o resto da vida. Dentre os 72 internados na última quarta-feira, um apresenta insuficiência renal. Os demais sofrem de insuficiência respiratória.

Para o pneumologista Rogério Rufino, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é comum complicações renais evoluírem para insuficiência respiratória. 

"O caso dos recrutas parece tratar-se de rabidomiólise - quando diante da privação de líquidos, o organismo libera produtos inflamatórios, culminando para um edema de pulmão. A princípio, pode não parecer, mas não beber água traz graves danos ao pulmão. O diagnóstico preciso, no entanto, ainda é prematuro". 

Para o urologista Alfredo Felix, também da Uerj, se a versão dada pelos pais dos recrutas for verdadeira, o treino foi mal conduzido pela Marinha. "Se muitos recrutas apresentaram problemas orgânicos, o treino foi muito mal conduzido. Apesar de tratar-se de uma preparação de guerra, os aspirantes tem que se hidratar ao longo do treinamento". 

Segundo ele, os danos provocados pela ausência de ingestão de líquidos, podem ser irreversíveis. "Esse jovem que está fazendo hemodiálise (Victor Hugo) certamente terá diminuição da função renal para o resto da vida. Lesões renais são irreversíveis. Esses jovens podem ter problemas durante o resto da vida".

No início da tarde de ontem, Victor Hugo Pereira, de 19 anos, (um dos casos mais graves) foi transferido da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Marcílio Dias para a enfermaria. Entretanto, segundo informações da família do paciente, ele vai permanecer dependente de sessões de hemodiálise.

"Ainda não sabemos se tomaremos providências contra a Marinha. O Victor Hugo é quem vai decidir o que será feito. O que eu desejo neste momento é a cura do meu filho", disse a mãe do paciente, Marise Pereira, ao deixar o hospital na tarde desta segunda-feira (22).

Irmão do aspirante Leonardo, cujo estado de saúde é considerado de maior gravidade, Leandro Gama Rodrigues, 24 anos, diz que levou um susto ao receber a notícia de que o irmão não consegue sequer respirar por conta própria, além de estar inconsciente.

"O sonho do meu irmão era ser fuzileiro naval e isto virou um pesadelo para toda a nossa família. Ele está com o pulmão muito afetado, todo entubado. Quando estive no hospital, fiquei chocado. Quando a Marinha me procurou para falar sobre o problema, disseram que o quadro dele era estável. Ao conversar com o médico, percebi a gravidade do problema", contou o assistente de produção que vive no Espírito Santo. "Eu soube que o grupo ficou dois dias sem beber água, mesmo fazendo exercícios físicos".

Causas estão sendo apuradas

Em nota divulgada na tarde desta segunda, o comando do Primeiro Distrito Naval informou 38 recrutas receberam alta hospitalar por apresentarem melhora de quadro clínico. Estes alunos retornarão às suas atividades normais no curso e serão acompanhados pela Divisão de  Saúde do Ciampa. Ainda segundo o documento, os demais alunos internados apresentam boa evolução clínica e continuam recebendo assistência médica necessária.

As causas do problema que hospitalizou os jovens ainda estão sendo apuradas. No último domingo, o grupo - até então de 57 recrutas - foi submetido a exames. A Secretaria de Saúde foi procurada pelo JB e não divulgou os resultados. A expectativa é que os resultados sejam conhecidos nos próximos dias.