Estádio Caio Martins: caminho polêmico para um destino incerto

Complexo esportivo de Niterói chegou a ser posto à venda, para desespero da população, que teme perder uma das poucas opções de prática esportiva do município

Em meio às celebrações pelos seus 70 anos - completados na última quarta-feira -, o Complexo Esportivo Caio Martins, em Niterói (Região Metropolitana do Rio) vive momentos de incerteza. De acordo com publicação do Diário Oficial do Estado, o governo cedeu ao Botafogo a posse de um terreno em Marechal Hermes (Zona Norte do Rio), onde treinavam as categorias de base do clube, para que seja construído um centro de treinamento. 

Segundo a assessoria de imprensa do clube alvinegro, a liberação de uma área para o seu novo CT era uma das exigências para a entrega da concessão do Caio Martins. Ainda de acordo com o Botafogo, o governo do estado não entrou em contato para reaver o direito sobre o estádio, cujo direito de uso pertence ao clube até 2027.

Com isso, na semana em que o Caio Martins faz aniversário - o estádio foi inaugurado em 20 de julho de 1941 - seu destino ainda preocupa vizinhos e frequentadores. Toda desconfiança advém de um anúncio feito, em abril deste ano, pelo governo estadual, colocando o espaço à venda, e permitindo ao comprador demolir estádio, ginásio e piscina, desde que, como contrapartida, fossem construídos outros equipamentos esportivos na cidade.

A população foi contra. Logo depois, Sérgio Cabral municipalizou o espaço, medida rechaçada pela prefeitura niteroiense. Após a negativa do prefeito Jorge Roberto Silveira em ficar com o complexo, Cabral afirmou, por meio de nota, que “vai procurar o ministro do Esporte, Orlando Silva, para buscar uma destinação de esporte e lazer ao local, de forma a bem atender ao uso da população”.

Na Câmara de Vereadores de Niterói, um projeto tentou tombar o complexo esportivo. Depois de aprovado, o texto foi encaminhado para o Conselho Municipal de Proteção de Patrimônio Cultural, que decidiu, por unanimidade, não recomendar o tombamento do espaço por este não ter importância arquitetônica nem estética. O vereador Luiz Carlos Gallo (PDT), autor do pedido, questiona a decisão do órgão e a atitude da prefeitura.

“Todo mundo em Niterói tem alguma história no Caio Martins. A alegação do Conselho é fraca. O espaço foi, inclusive, carceragem de presos políticos na época da ditadura. Além do mais, administrar o Caio Martins não seria oneroso aos cofres municipais”, garante. “Ele fica em uma área movimentada, muitas empresas têm o interesse de fazer publicidade ali. Com eventos, já arrecadou R$ 200 mil em um dia, em um show do Capital Inicial”.

A relação da dona de casa Maria Pereira, de 75 anos, com o Caio Martins é exemplo da importância do complexo para a população de Niterói. Com três próteses ortopédicas no corpo, a moradora do bairro de Santa Rosa afirma que as duas sessões semanais de hidroterapia na piscina do complexo são responsáveis por garantir seu caminhar indolor e bem-estar. Caso fosse preciso pagar pela atividade, ela diz que não a faria.

“Não existe outro local na cidade onde essa atividade seja ofertada gratuitamente. Meu médico mesmo afirma que essas duas horas semanais dentro d`água garantem a saúde dos meus joelhos. Não fosse a piscina do Caio Martins, já estaria numa cadeira de rodas. Tomara que não façam nada por aqui”, desejou.

O aposentado Carlos Mayrinck, de 72 anos, vizinho do complexo esportivo, lamentou não só  o subaproveitamento do espaço, mas o abandono do entorno. Segundo ele, falta a presença policial e o ordenamento das calçadas, que oferecem risco aos pedestres.

“Além de ser um desperdício esportivo - caberiam jogos dos times grandes do estado aqui - os arredores refletem o que acontece ali dentro: um quarteirão inteiro com possibilidades para o lazer da população que está largado de lado, sob risco de virar prédio ou shopping. É uma pena”, avaliou.

O tenente-coronel Paulo Henrique Azevedo de Moraes, que comanda o 12º BPM (Niterói), afirmou que não tem notícia do consumo de crack na Rua Lopes Trovão, que margeia o estádio. Porém, depois de questionado pelo Jornal do Brasil, o militar disse que enviaria uma equipe ao local.

“O problema de mendicância é de toda a cidade”, afirmou o responsável pelo policiamento em Niterói. “O que acontece em Icaraí, é que a população se incomoda com a pobreza. A denúncia de moradores sobre o consumo de crack será averiguada por uma patrulha do 12º BPM”.

Sem respostas

Procurada pela reportagem do JB, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), responsável por gerir o Caio Martins, não respondeu as solicitações, nem autorizou a entrada da equipe no estádio. A Suderj também não se pronunciou sobre os questionamentos feitos quanto à atual utilização do complexo esportivo e seu funcionamento

A prefeitura de Niterói também não respondeu ao JB para justificar a opção por não aceitar municipalizar o Complexo Esportivo de Caio Martins.