Deslizamentos ainda ameaçam moradores de encostas no Rio

No último dia 3, duas crianças e uma adolescente morreram soterradas na cidade de Petrópolis, na serra fluminense. As mortes ocorreram praticamente um ano após os deslizamentos de Angra dos Reis que mataram 53 pessoas. Uma tragédia que antecedeu outra ainda maior. No dia 5 de abril, um dilúvio caiu sobre o Rio de Janeiro, provocando o caos e deixando 257 vítimas fatais em deslizamentos.

De lá para cá, a prefeitura do Rio adquiriu um novo radar para antecipar a previsão de fenômenos meteorológicos, treinou a população para reagir em situações de emergência e mapeou áreas de risco. Mesmo assim, como o acidente em Petrópolis mostrou, novas tragédias causadas por deslizamentos continuarão ocorrendo no estado do Rio. A previsão resulta de uma simples combinação: fortes chuvas, recorrentes no verão, e pessoas habitando áreas de risco.

Veja algumas das medidas tomadas para minimizar os riscos que as chuvas ainda reservam para o verão de 2011:

Previsão

Dependente de um radar da aeronáutica localizado em Petrópolis para identificar a aproximação de tempestades, a Defesa Civil não foi capaz de registrar a tempo o potencial das nuvens que ameaçavam o litoral do estado antecedendo chuvas em abril, demorando para emitir alertas à população.

A evolução para 2011 foi a compra de um radar melhor localizado que permite uma previsão mais precisa com antecipação de quatro a seis horas. Ainda não é o ideal, como admite o prefeito do Rio, Eduardo Paes. O recém inaugurado centro de operações da prefeitura, que passou a emitir alertas e tem o objetivo de tomar medidas com mais agilidade e eficiência, trabalha para o desenvolvimento de um programa capaz de antecipar em 48 horas a ocorrência de precipitações.

"A previsão do tempo já é melhor porque compramos um novo radar. Mas ainda não nos dá as 48h de antecedência do Pmat (Pattern Modern Analysis Tool, uma Ferramenta Moderna de Análises do tempo desenvolvida pela IBM, que deve entrar em funcionamento em 2012). Aqui podemos ter uma previsão, não significa dizer que tragédias não aconteçam", admitiu o prefeito.

Áreas de risco

As encostas do Estado, com habitações precárias e construídas em locais perigosos, ainda representam o maior perigo para a vida das pessoas. A estimativa da prefeitura do Rio de Janeiro é de que 18 mil imóveis estejam em áreas de risco em 117 comunidades. O simples mapeamento, divulgado recentemente, permite a melhor atuação da defesa civil para emitir alertas e desocupar residências. A prefeitura da capital informa ter treinado 1,8 mil agentes que moram nas comunidades para colaborar com a defesa civil a evacuar as áreas em momentos de crise.

"É um pequeno exército de pessoas treinadas para implantar um alerta nas comunidades", afirma Sérgio Simões, secretário de Defesa Civil.

O mapeamento também é necessário para guiar as políticas de reassentamento. De acordo com a prefeitura, 47 comunidades passaram por obras de contenção em 2010.

No Estado, o número de pessoas em áreas de risco ainda é desconhecido. Uma iniciativa do Departamento de Recursos Minerais do Rio de Janeiro do governo do Estado do Rio de Janeiro pretende mapear e apontar essas áreas nos municípios que não recebem recursos federais para a prevenção de desastres. Os estudos não devem ficar prontos antes de 2012.

Assistência aos desabrigados

Na capital, uma das maiores dificuldades admitidas pela prefeitura é a remoção das pessoas que irregularmente vivem nas encostas. As vítimas das chuvas de abril receberam assistência do aluguel social (R$ 400 mensais) e foram reassentadas em habitações do programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Federal.

Angra dos Reis ainda não conseguiu fornecer moradia para todas as vítimas da tragédia do início do ano. Apesar do anúncio da construção de 512 casas a serem entregues à população, apenas um terço foram concluídas. O mapeamento das áreas de risco ainda não foi realizado e a aquisição de um radar meteorológico está prevista para 2012. Além disso, apenas 200 das 800 habitações em áreas de risco no morro da Carioca, atingido pelos deslizamentos em 2010, foram demolidas. A defesa civi do município alega dificuldade em fazer que as pessoas deixem suas casas.

Cerca de 100 desabrigados pelas chuvas de abril em Niterói ainda não receberam moradia. Essas pessoas ainda estão alojadas em uma unidade das forças armadas no município, entre eles moradores do Morro do Bumba, onde 47 pessoas morreram. Na quarta-feira (5), o Tribunal de Justiça do Rio negou a transferência dos desabrigados para um outro alojamento e acatou o pedido do Ministério Público para que seja concedida moradia fixa às vítimas ainda não atendidas.

Pontos de alagamento

Mais responsáveis por perdas materiais e transtornos, os alagamentos de vias públicas no Rio são constantes. Os motoristas do Rio bem sabem. Choveu, alagou. A prefeitura contabiliza pelo menos 219 pontos críticos de alagamento na cidade e trabalha com uma meta para reduzir para 184 em 2012. Cenas de carros boiando nas vias da cidade podem se repetir neste verão. O entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas é um dos pontos tradicionais de enchente, admite o prefeito. "Não há o que fazer a curto prazo. Se a maré estiver cheia e a chuva for forte, a Lagoa vai transbordar. Sempre tivemos que lidar com isso na cidade", afirmou Paes.