General admite preocupação com abusos em favelas do Rio

RIO - A missão do general de brigada Fernando José Laquiaval Sardenberg, comandante da Força de Paz do Exército no Rio de Janeiro, pode ser tão complicada quanto localizar-se nas vielas estreitas e tortuosas dos complexos de favelas da Penha e do Alemão. Além de garantir a paz em uma área que passou décadas como reduto inacessível de traficantes, é preciso manter o controle sobre um efetivo de 2 mil homens do Exército, da Polícia Militar e da Polícia Civil e garantir que não ocorram abusos.

No complexo do Alemão, moradores reclamaram de casas arrombadas e bens saqueados nos dias que se seguiram à invasão policial. Casos mais graves foram registrados em outras operações, algumas envolvendo até o Exército. Em 2008, 11 militares que faziam parte do efetivo incumbido de garantir a proteção de obras de um projeto do governo federal no Morro da Providência prenderam três jovens da favela e entregaram para traficantes de um grupo rival do Morro da Mineira. Os jovens foram assassinados.

Sardenberg admite a preocupação. De acordo com ele, um esquema especial está sendo montado para eliminar a possibilidade de conduta abusiva por parte da Força de Paz. Os policiais atuarão juntamente com os militares e a ideia é que a vigilância seja permanente. "(Os policiais) estarão nos vendo e nós estaremos vendo eles. A regra do jogo é clara. Para todos os lados", afirma o general.

O comandante promete punir com rigor se algum excesso for detectado. A expulsão da força de paz será a primeira medida. "Se (o infrator) for um militar, vai entrar imediatamente em uma viatura e será levado ao quartel onde serão tomadas as sanções disciplinares cabíveis", disse, explicando que também será imediatamente afastado o policial militar ou civil responsável por desvio de conduta. Sardenberg afirma que ele mesmo vai telefonar para a autoridade policial e solicitar punição adequada.

Segundo o general, serão instaladas ouvidorias nas comunidades para que reclamações e denúncias sejam apuradas.  Sardenberg disse que o efetivo empregado, descrito como "presença maciça" pelo comandante, vai ter total controle das favelas. De acordo com ele, essa será a principal diferença entre a ocupação atual sob o controle da polícia e a ocupação da Força de Paz. "Vamos entrar, nos instalar, operar em patrulhamento. Com isso, vamos poder garantir, em melhores condições, o direito de ir e vir dos moradores, assim como o trabalho dos órgãos da prefeitura nas comunidades".

As tropas vão se instalar em pontos estratégicos, montando postos de campanha onde permanecerão dia e noite. Uma delegacia especial de Polícia Civil também será montada nas comunidades para dar maior agilidade no cumprimento de mandados de busca e apreensão e para receber eventuais detidos.

Os militares vão atuar na patrulha e também terão poder para revistar. Quem cumprirá mandados de busca e apreensão nas casas serão os policiais civis que fazem parte da Força de Paz. Sardenberg diz que o exército dará apoio e acompanhará as ações.

A previsão de saída do Exército dos complexos da Penha e do Alemão é para outubro de 2011. A data coincide com a formação de novos policiais militares que deverão fazer parte do contingente das unidades de polícia pacificadora a serem instaladas nas comunidades.