Milícia presa no Rio é semelhante à Liga da Justiça, diz MP

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro desarticulou nesta sexta-feira, em parceria com a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), um grupo de milicianos que atuava no bairro de Pedra de Guaratiba, na zona oeste da cidade. Eles foram comparados à Liga da Justiça, organização criminosa que atuava em Campo Grande. Pelo menos cinco pessoas foram presas. A quadrilha é integrada por um policial civil, dois PMs e um subtenente do Exército. Um dos suspeitos, responsável pela administração da organização, atuava com o apoio de três filhos, segundo o MP.

Em outra frente, com apoio da Divisão Anticartel e de Defesa da Ordem Econômica do MP-RJ (Dacar), de policiais do 27º BPM e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Operação Biscoito realizou uma ação em Santa Cruz contra o comércio de combustíveis adulterados e gás a preços superfaturados, supostamente controlados por milicianos. O Gaeco denunciou e requereu a prisão preventiva de dez integrantes da quadrilha à 39ª Vara Criminal da Comarca da Capital. Também pediu a expedição de mandados de busca e apreensão nos endereços dos criminosos e no Centro Comunitário Paulo Rogério Pereira, além do afastamento imediato dos milicianos de suas funções públicas.

Todas as demandas foram acolhidas pela Justiça. Os mandados foram cumpridos pela Draco, que investigava o caso desde o início do ano. A ação recebeu o nome de Operação Biscoito em referência à comunidade de Piraquê, dominada pela quadrilha. "Essa milícia era liderada por um policial civil e continha um núcleo familiar, à semelhança da conhecida Liga da Justiça, que aterrorizava Campo Grande. A presença de policiais militares e de um integrante do Exército Brasileiro, por sua vez, potencializava as atividades do bando. Foi bom termos conseguido neutralizá-la antes que a situação se agravasse ainda mais", diz o Coordenador do Gaeco, promotor de Justiça Claudio Varela.

Entre as atividades ilícitas, a denúncia cita a cobrança de "taxa de segurança" e de "comissões" sobre a venda de imóveis e terrenos, o monopólio da comercialização com ágio de botijões de gás e a redistribuição ilegal de sinais de TV a cabo. A quadrilha é descrita como extremamente violenta. Seus membros praticavam espancamentos, torturas e homicídios de pessoas que resistem ao seu domínio em plena luz do dia e em locais de aglomeração, sem qualquer preocupação em ocultar suas identidades. De acordo com a denúncia, um "triunvirato" chefiava o bando.

Principal liderança é um policial

O policial civil Eduardo Pinto da Cunha, o Cunha, é apontado como a principal liderança do grupo. Ele usava armas e viaturas da 43ª DP (Guaratiba) para respaldar a atuação dos outros integrantes, além de ameaçar e extorquir os moradores da comunidade. O PM Ubirajara Rodrigues Gama Filho, o Gama, lotado no 31º BPM (Recreio), e Geraldo Maranhão da Costa, o Geraldão ou Maranhão, completavam o primeiro escalão da milícia.

Gama seria um dos responsáveis pelo domínio da quadrilha na área. Geraldo administraria a organização, sem prejuízo da participação nas atividades de campo, como expulsão de desafetos. Tal como o pai, os filhos dele Pedro, Isabel e Sebastião Bastos Maranhão da Costa participariam da cobrança das extorsões. "Pedrinho" e "Tião", como eram conhecidos, seriam responsáveis ainda por espancamentos, enquanto "Loura" também atuaria como motorista.

Segundo o MP, um dos mais temidos integrantes da milícia era o subtenente do Exército Marco Antonio Cosme Sacramento, vulgo "Sacramento", especialista em homicídios e ocultação dos cadáveres em um cemitério clandestino de sua propriedade. A milícia era integrada ainda por Antonio Luis "Tonho" da Costa, Jacson Alves dos Santos, o "Kojak", e pelo policial militar Marcos Antonio Pisente Carvalho, "Marquinho", lotado no 10º BPM (Resende).

Os dez vão responder pelo crime de quadrilha armada, sendo que, para os três líderes, o Gaeco pediu a aplicação de agravantes previstas no Código Penal. As investigações continuarão, para responsabilizar outros integrantes da quadrilha. A denúncia será encaminhada à Corregedoria-Geral Unificada e à corregedoria interna das Polícias Civil e Militar, para adoção de medidas cabíveis.