Casas de luxo barram pesquisadores do Censo no Rio

Luís Bulcão Pinheiro, Portal Terra

RIO - Uma das cidades com maiores contrastes do Brasil representa também um dos maiores desafios para o Censo 2010: entrevistar a elite carioca. Enquanto nas favelas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tem conseguido aplicar o questionário, numa das ruas do Bairro da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, a recenseadora Leila Abade Andrade, 37 anos, bateu à porta de 18 casas, mas só em duas os moradores responderam ao questionário.

As casas têm características semelhantes: cercadas por muros altos e apinhadas por câmeras de segurança. São residências de luxo. As moradias da classe mais alta da sociedade brasileira. E a resposta encontrada pelos recenseadores também tem sido a mesma em quase todas elas: "Precisa ter autorização para falar com o patrão. A senhora tem autorização?", pergunta o homem depois de minutos de espera em frente ao casarão.

A conversa termina com Leila deixando um cartão com seus contatos. A esperança é de que o morador marque uma entrevista ou solicite um envelope com um código para que o questionário seja respondido pela internet.

Ao descer a rua, Leila avistou um jovem saindo de uma das casas e abrindo a porta de um carro. Ela o abordou. Perguntou se não havia um morador que pudesse responder ao questionário do Censo. O jovem foi solícito. Abriu a porta de casa e pediu para que uma das empregadas levasse a pesquisadora até a sala. Pediu ainda que ela chamasse a mãe dele para responder o questionário e saiu. Passados mais de 20 minutos de espera, a dona da casa entrou na sala com vista para o Cristo Redentor e para a lagoa Rodrigo de Freitas. "O que é isto? Vocês deixam qualquer um entrar aqui?", esbravejou a moradora reprimindo os dois empregados.

"Você me desculpe, mas não tenho tempo para isso. Passem em outra casa. Estou recebendo visitas no momento", disse rispidamente a moradora indicando a porta de saída. "Aqui é assim. Em um condomínio de classe média consegui entrevistar todos os domicílios de um prédio de 60 apartamentos em dois dias. Nessa rua, é a terceira vez que eu passo", afirma Leila.

A recenseadora ainda conseguiu deixar um cartão com o caseiro e pediu para que uma entrevista fosse marcada. Em pouco mais de uma semana de pesquisa, Leila completou 241 dos 285 endereços marcados para o seu setor. Faltam ainda 44 inacessíveis condomínios de luxo. A dificuldade em realizar os questionários nesse tipo de domicílio foi expressa pelo coordenador do Censo no Rio, Romualdo Rezende: "Nossa dificuldade até o momento tem sido nos condomínios de luxo, que têm segurança reforçada. As pessoas normalmente não estão em casa para receber os pesquisadores", afirmou.

Não vai perguntar se eu estudei ou não?

A designer Heloísa Schmitt é dona de uma das duas residências onde Leila conseguiu aplicar o questionário. Após breve apresentação pela câmera de segurança, ela convida a recenseadora para entrar. Após passar pelo portão e subir uma ladeira de 100 metros, Leila chega até o andar de entrada da residência.

A designer não vê problemas em responder às questões do Censo. Mas quando Leila aborda a renda mensal dos moradores da casa, ela aperta os lábios. "Preciso responder isso?" Apesar do susto com a pergunta, Heloísa segue em frente. Fica levemente desapontada quando o questionário termina. "Só isso? Não vai perguntar se eu estudei ou não?"

A recenseadora explica que o questionário básico, aplicado em todas as residências não menciona escolaridade. Apenas o questionário por amostra, realizado em algumas residências selecionadas de forma aleatória mencionam o tema. "Estão procurando saber o quanto eu ganho, mas não como consegui obter o que tenho. Estudei, sou formada. Faço parte de uma parcela da população que tem curso superior e deveria estar representada", afirma Heloísa.

O questionário termina após 12 minutos de entrevista. Leila aproveita para fazer a pesquisa na residência vizinha, de Rogério Schmitt. Seria o segundo e último domicílio em que Leila conseguiria realizar o question