Jovens aprendem na biblioteca-parque a arte de desenhar nos muros

JB Online

RIO - O jovem João Victor Barros, de 14 anos, passava seu tempo livre danificando monumentos, fachadas de casas, edifícios e vias públicas com seu spray aerossol. Para ele, essa era uma forma de chamar a atenção e se divertir. Mas foi em uma visita ao curso de grafite da Biblioteca-Parque de Manguinhos que o estudante resolveu substituir as citações de protesto e as frases de insulto por belas paisagens e descrições poéticas. Sua tag, assinatura na gíria dos grafiteiros, é hoje apreciada e não mais hostilizada.

- Eu não tinha uma visão muito boa do que significava o piche. Muitas pessoas fazem dança e luta para se expressar e o grafite me ajuda nesse sentido. Depois que assistir a uma aula na oficina da biblioteca, comecei a pensar diferente. A diferença entre pichação e grafitagem é muito louca, porque é uma linha imaginária entre a arte e o vandalismo. Só que dentro da arte tem coisas muito melhores. No piche, você está limitado. Com o grafite, é possível usar a imaginação. Já estou pensando no meu futuro. Acho que o grafite irá me ajudar profissionalmente - confessou João Victor ou Leco, para os grafiteiros.

Assim como João, cerca de vinte jovens, entre 13 e 17 anos, estão tendo a oportunidade de transformar o ato de vandalismo em arte. Considerada crime ambiental, a pichação fazia parte da vida de muitos grafiteiros. No curso de grafite, ministrado todas as terças e sexta-feiras, em Manguinhos, eles optaram por trocar os riscos de serem punidos com detenção de 3 meses a 1 ano e multa por, quem sabe, uma profissão. A maioria dos estudantes da professora Samantha Rego, grafiteira há cinco anos, está usando a manifestação artística para dar novo rumo a suas histórias.

- Os alunos da oficina aproveitam o horário de lazer, depois do colégio, para ter um novo contato com um centro cultural. Muitos estudantes já curtem o grafite e têm uma influência das pichações. Os jovens mostram muito interesse, trazendo novidades. Estão sempre ativos. No espaço onde ensino, eles encontram tudo que necessitam: cartolinas, notebook, tintas e canetas. Eles têm aula de proporção, anatomia e letras - explicou Samantha, também conhecida como Muleca.

Os muros da comunidade da Zona Norte servem de tela para o trabalho do grafiteiro iniciante, o chamado toy. Ligado a movimentos como o Hip Hop, o grafite é usado, muitas vezes, para retratar a realidade de moradores de áreas carentes da cidade do Rio de Janeiro. Na sala de aula, o grafiteiro/writter pinta sobre o seu cotidiano e seus sonhos. Para praticar a arte do grafitismo, eles contam com o lugar, um spot. De latas de spray e látex nas mãos, os estudantes se preparam para dar forma a seus desenhos.

- Sempre criamos personagens para ensinar a arte do grafite. A prática acontece depois de algumas aulas. Desde que abrimos o curso, em maio deste ano, criamos um muro e duas tábuas de madeira. Antes, porém, fazemos muitos exercícios de letras, centralização e perspectiva. Depois, então, são divididos grupos que elaboram o layout do muro que querem criar. Para mostrar a arte dos meninos e meninas, criei o www.fotolog.com/leparc - relatou a professora.

Embora, nas últimas décadas o grafite tenha se destacado, a manifestação artística é uma prática antiga. Está embelezando as paredes de cidades de todo o mundo desde o Império Romano. Introduzida no Brasil no final da década de 70, a técnica conquistou milhares de adeptos. Os brasileiros incrementaram a arte dos grafiteiros norte-americanos e agora estão entre os melhores grafiteiros do mundo. A prática desta arte está ligada a diversas tribos urbana que aproveitam os espaços para mostrar seus talentos.

Assim como famosos grafiteiros, entre eles Jean-Michel Basquiat - que ficou famoso com suas poesias nas fachadas de prédios abandonados em Manhattan, em Nova York -, os jovens artistas de rua sofrem ainda com o preconceito por causa da falta de informação. Uma pequena parte da sociedade não consegue enxergar o valor artístico do grafite e, algumas vezes, não o distingue