Em ação desde a década de 70, dupla de pichadores revela tradições

Cristiane Pepe , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Quem pensa que pichação é coisa de pouco tempo se engana. Desde a década de 70, existem pichadores no Rio. A reportagem do JB conseguiu conversar com dois desses veteranos para entender um pouco desta prática.

Conhecidos como Pool e Lady, os dois pichadores se consideram os mais antigos da cidade. Com 44 e 37 anos, respectivamente, eles estão na ativa há mais de duas décadas.

Pool, que já foi preso pichando, começou com os primos no bairro de Marechal Hermes. De lá o grupo começou a se expandir para Grajaú, Tijuca e Méier. Na época usavam as iniciais do bairro. Méier era ME, Marechal Hermes, MH e assim por diante. A primeira equipe a ser formada chamava-se Vikings.

Na década de 70, tudo começava nos fliperamas. Quem ia a esses lugares era mal visto, já que rolava de tudo lá conta Pool. As mães nunca queriam os filhos nesses locais. Hoje, os fliperamas deram lugar às lan houses.

A fama da dupla no meio dos pichadores é tanta que os novatos tentam aproximar-se deles.

A gente não quer andar com os mais novos, mas eles querem andar com a gente explica Lady. Eles pagam até as tintas, tudo para ficarem mais populares no meio.

Tradição

Líder do grupo Amantes da Maconha, Pool contou algumas das tradições do meio. Além de organizarem churrascos, eles preparam festas antes de começar as pichações.

Todas as sextas, fazemos festas e depois partimos para rabiscar revela, lembrando ainda outras tradições. Quando alguém é batizado numa gangue, ele paga a lata de tina para todo mundo.

Também existem rivalidades entre gangues de pichadores, que assinavam seus nomes em cima dos piches dos adversários.

Antigamente, a rivalidade era ainda maior lembra Lady. Era normal andar com soco inglês no bolso para se defender e aconteciam muitas brigas. Hoje, isso não acontece mais, só que a rivalidade ainda existe.

Apesar da paixão pelo perigo, envolver os filhos na transgressão está fora de questão para os dois.

Meus filhos são adolescentes e não podem saber do que eu faço. Eles nem imaginam.

Ditadura não conseguiu calar o maremoto do celacanto

Os anos passaram, mas a repressão contra os pichadores só diminuiu. Segundo a dupla, a perseguição era bem maior na época da ditadura, que tinha toque de recolher.

Na época, nós tínhamos que fazer as pichações bem cedo, por volta das 19h lembra "Pool". Hoje em dia é bem diferente e isso não acontece mais. Hoje a gente só sai para rabiscar as ruas depois das 2h da manhã.

Apesar de todas as dificuldades, eles garantem que o grande prazer é a adrenalina do risco. Um dos exemplos mais famosos é o "Vinga", pichador famoso do começo dos anos 90.

Ele se arriscava muito, por isso ficou conhecido cita Lady. Foi ele quem pichou o relógio da Central do Brasil e a Igreja da Candelária. Mas ele morreu em 1993, quando caiu de uma marquise.

Celacanto

Ainda está viva na memória dos mais velhos a frase "Celacanto provoca maremoto", que foi pichada em vários locais da cidade, especialmente em caixas de correio e orelhões. De acordo com "Pool", o que pouca gente sabe é que isso era um tipo de protesto contra a ditadura.

Há uma versão mítica de que o celacanto provocava maremotos enquanto nadava ele explica. O que os pichadores daquela época queriam fazer era chamar a atenção da sociedade para o que estava acontecendo, ou seja, causar um maremoto moral.