Largo do Boticário: casario tombado sofre com abandono

osé Luiz de Pinho, Jornal do Brasil

RIO - Vós que morais neste encanto, sob a bênção da água e do silêncio, lembrai-vos que de vós depende o encanto daqui .

A mensagem escrita numa placa de bronze, cravada em pedra, é o cartão de visita do Largo do Boticário, mas está longe de corresponder à realidade.

Patrimônio cultural do Rio, construído no século 19, o casario colonial do Cosme Velho tem sotaque nordestino e está entregue às baratas.

No reduto visitado até pelo imperador dom Pedro II e que serviu de residência para o boticário da família real, duas famílias de retirantes da Paraíba vivem em condições precárias.

Infiltrações, fios desencapados, limo nas paredes, de onde proliferam ervas daninhas, retratam a degradação de um monumento que, ainda assim, faz parte do roteiro de inúmeros turistas.

Nascida em Mamanguape, interior da Paraíba, Rosileide Pedro da Silva, 39 anos, é a precurssora dos atuais moradores do largo.

Vim pra cá com quatro anos, trazida pela minha irmã Balbina, já falecida revela Rosileide. Passamos dificuldades, principalmente com as goteiras e a humidade, que causam muitas doencas. Mas, para nós, aqui é um paraíso.

Além da anciã Síbio Aureliano Bittencourt, 86 anos, herdeira da fámília Bittencourt, e que mora no sobrado da casa 23, dez pessoas vivem no que restou das sete residências do Largo do Boticário.

Solteira, Rosileide tem um casal de filhos, um neto, Juan, e uma neta prestes a nascer, já que a filha, Débora, está grávida de sete meses. A outra família veio de João Pessoa: o casal Álvaro Luís, irmão de Rosileide, e Daniele, que têm três filhos. O desempregado Paulo de Melo, 49 anos, é uma espécie de guru de todos.

Motorista particular há oito anos, Álvaro Luís também usufrui dos encantos do Largo do Boticário. Pai de três filhos Sophia, David e Artur ele garante:

Nem no verão a gente sente calor aqui. Além do fresco e do barulhinho da água correndo no Rio Carioca, esse silêncio é gostoso e não tem preço afirma Álvaro.

Além do privilégio de ter como quintal um bosque de Mata Atlântica, que pertence à Floresta da Tijuca, as dua famílias ainda faturam uns trocados com as incontáveis levas de turistas que visitam o Largo do Boticário.

Uma atividade de que dona Síbio Bitencourt liberou para os vizinhos.

Dá pra gente tirar uns R$ 30 por dia. Na quarta-feira, mesmo, só um turista deu uma caixinha de R$ 20. É disso que a gente sobrevive disse Daniele.

Pintora sente vergonha do abandono da construção

Mesmo abandonado, o histórico Largo do Boticário continua atraindo centenas de turistas por semana e servindo de fonte de inspiração para artistas plásticos. Como Sandra Nunes, que há 20 anos pinta as belezas e a arquitetura do Rio.

Na semana passada, ela esteve no Largo e pintou uma tela reproduzindo a fachada do casario do século 19. Mas Sandra ficou chocada e se impressionou com a decadência do prédio histórico.

Me senti envergonhada diante dos turistas que visitavam o Largo. Fiquei muito chocada ao ver o estado de decadência deste lugar lamentou ela. Cheguei da Europa há dias e, na Itália, por exemplo, se dá muito mais valor ao patrimônio histórico do que no Brasil.

Carioca, de Botafogo, Sandra integra um grupo de pintores, que retratam as belezas do Rio ao ar livre. Há cinco anos, Sandra ganhou um concurso de pintura, também reproduzindo o Largo do Boticário. Ela não se conforma com o pouco caso das autoridades.

Os turistas dão mais valor ao Largo do Boticário do que os nossos governantes. Uma pena lamenta a artista plástica.

Qualificando o Rio como uma cidade fotogênica, a pintora faz um alerta às autoridades.

Como pode um cartão-postal do Rio, na encosta da Mata Atlântica e a cem metros da estação do bondinho do Corcovado estar assim, com infiltrações e fios soltos que podem provocar um incêndio? Até o Rio Carioca, que corta o Largo, está sujo! desabafou Sandra, inconformada.

Prefeitura diz ter projeto de revitalização para o largo

Tombado pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural da Prefeitura do Rio, o Largo do Boticário passará por uma revitalização daqui a 90 dias. É o que informa o subsecretário do município, Washington Fajardo:

Junto à Secretaria Municipal de Turismo e à iniciativa privada elaboramos um projeto de revitalização turística e cultural no Cosme Velho, que englobará uma área de 18 mil metros quadrados.

O subsecretário informa, também, que o projeto se estenderá da descida do Túnel Rebouças à Bica da Rainha, na estação do bondinho, na Rua Cosme Velho. O projeto ficará pronto em 30 dias, e 60 dias depois começam as obras.

É um desperdício, até porque 700 mil pessoas por ano visitam o Corcovado pegando o bondinho, a cem metros do largo ponderou. Por isso, queremos revitalizá-lo.

Também serão revitalizados o Solar dos Abacaxis, a Casa de Austregésio de Athayde, o Museu de Arte Naif e a Bica da Rainha.