Fechada a 'farmácia do remedinho'

José Luiz de Pinho, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Os 6 mil moradores dos sete blocos da Cruzada São Sebastião, no Leblon, se assustaram, nesta quinta-feira, quando 50 policiais civis de três delegacias invadiram o conjunto habitacional, às 9h, para cumprir 27 mandados de prisão expedidos pela 25ª Vara Criminal. Os alvos eram traficantes que agem ali e têm ligação com bandidos da Rocinha, em São Conrado.

Construída em 1957, a Cruzada é o segundo maior ponto de venda de drogas da Zona Sul, com faturamento mensal de R$ 200 mil, segundo a polícia. A operação teve 16 presos e apreensão de drogas. Nenhuma arma foi achada.

Era tanto policial com fuzil que me senti na guerra do Iraque. Pensei que o Oriente Médio tinha mudado para a Cruzada disse a presidente da Federação das Associações de Moradores do Município, Márcia Veras de Vasconcellos, que mora no conjunto há 35 anos.

À tarde, na mesma operação, a polícia prendeu no Centro, por associação para o tráfico, Sonia Pereira Antunes, mãe do traficante Ramon Antunes Marinho, um dos chefes do tráfico na Cruzada e ligado ao traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha.

Doutor e madame

O presidente da Associação de Moradores da Cruzada, Joel Nonato, afirmou que o tráfico existe no local por omissão das autoridades do município e do estado.

A Cruzada é a farmácia do remedinho do Leblon. Muito doutor e madame, até com cachorrinho, vêm aqui buscar o seu tóxico disse Joel. Se o poder público fosse presente, isso não aconteceria. Nem parece que a Cruzada pertence ao Leblon.

Havia cinco anos que a Cruzada não era alvo de uma operação da polícia. Joel reclama da falta de ações sociais.

Ao invés de gastar R$ 2 mil com cada preso, o estado deveria criar um programa social para tirar do tráfico os jovens que vendem droga aqui. Fui usuário e sei como é isso.

Fernando Veloso, delegado da 14ª DP (Leblon), informou que as drogas no conjunto vêm da Rocinha.

UPP na cruzada é o sonho de todo o bairro

A presidente da Associação de Moradores do Leblon (AmaLeblon), Evelyn Rosenzweig, diz que só a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora na Cruzada seria a solução definitiva para a criminalidade no local e nos arredores, onde agem ladrões de celulares e bicicletas, além de flanelinhas.

O número de assaltos nas ruas do Leblon vem aumentando, mas ter uma UPP no bairro virou fantasia lamenta a líder da AmaLeblon. O estado não possui efetivo suficiente de policiais. O 23º BPM, que já teve 1.100 policiais, hoje não tem mais do que 800.

Evelyn se contenta com a manutenção nas ruas do bairro dos 60 PMs treinados no 23º BPM para integrarem futuras UPPs.

Pelo menos isso o governador Sérgio Cabral, que mora no Leblon e é filiado à associação, me prometeu na semana passada revelou.

Abandono

Evelyn Rosenzweig lamenta o que classificou de pouco caso das autoridades com a Cruzada São Sebastião.

Houve um abandono total do poder público. Até o DPO que existia lá foi retirado no ano passado. Tratam a Cruzada como um bairro à parte do Leblon. É um erro.