Calçadas frias em vez dos abrigos municipais

Marcelo Fernandes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Pessoas dormindo nas calçadas das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no Centro, já são quase um cartão-postal às avessas da cidade. Mesmo com o frio das madrugadas batendo recordes nos últimos dias nesta terça-feira a temperatura caiu a 10,2 graus na Zona Norte muitas pessoas ainda preferem o relento a um dos 53 abrigos municipais da capital disponibilizados pela prefeitura.

Os moradores de rua do Centro dormem sobre papelões e cobertores doados ou recolhidos nas ruas. Pela cidade, a prefeitura estima haver 5.200 sem-teto, incluindo os que estão em abrigos.

Sob uma marquise da Rio Branco, o ex-motorista de ônibus Carlos Rodrigues da Costa, 46, conta que vive nas ruas há 25 anos, desde que chegou ao Rio vindo da Bahia.

Os albergues da prefeitura são cemitérios de corpos, sujos e mal-organizados critica o baiano, que diz ser um leitor voraz de livros espíritas e ter estudado comunicação social até o 2º período. As pessoas ficam jogadas lá, sem uma terapia ocupacional para preencher suas mentes.

Muito longe

Uma reclamação recorrente é a distância entre os abrigos e o Centro da cidade, onde a maioria ganha seu sustento.

O segurança Jorge Luís da Silva, 30, diz ser impossível pagar o transporte diário de num abrigo na Ilha do Governador (Zona Norte) até Copacabana, onde trabalha.

E as pessoas usam muitas drogas lá no abrigo, tornando o clima pesado. Nem todo morador de rua é usuário de drogas esbraveja, amaldiçoando também a burocracia para conseguir uma vaga, enquanto recebe um cobertor de uma mulher que doa roupas usadas.

Alguns não podem retornar ao lar sob risco de morte. O camelô Fernando César, 22, está jurado na Favela da Pedrinha, em Santa Cruz (Zona Oeste), onde morava. Milicianos que mandam na região o expulsaram por ele ser usuário de maconha.

Também não posso ir para o abrigo que existe no bairro, porque é perto da favela e posso ser visto ressalta E não quero ir para outros abrigos, já vi amigos serem espancados por funcionários.

O caldeireiro Carlos Roberto Guimarães, 46, diz que gostaria de ir para um abrigo. Oriundo de Porto Alegre, ele está há sete meses na cidade e reclama das dificuldades impostas pela prefeitura para conseguir uma vaga nos abrigos.

Eu gostaria de ir para algum lugar, mas não me encaixo no que eles querem. Preciso preencher formulário e, depois de um tempo, eles nos botam para fora, mesmo sem ter para onde ir acusa ele, que diz ter vindo para o Rio em busca de emprego em Macaé. Sem sucesso e brigado com a família, restou-lhe a calçada.

Descaso

Para uma funcionária pública que semanalmente entrega alimentos e roupas usadas aos desabrigados, há falhas na ação da prefeitura.

Não sei como é feito o trabalho, mas pelo que escuto das pessoas que esses locais são muito mal cuidados conta ela, que há dez anos distribui comida, remédios e roupas aos sem-teto. É complicado, já vi muitos ficarem doentes aqui por causa do frio.

Embaixo das marquises,

há lugar até para alemão

Embora a maioria das pessoas que vivem nas ruas seja composta de indivíduos com pouca ou nenhuma escolaridade, um homem louro, bem vestido e de olhos claros chamava a atenção entre aqueles que dormiam sobre papelões na esquina das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas.

Firmino (ele não diz o sobrenome para que a família não saiba onde está) tem 31 anos, é filho de um empresário alemão com uma brasileira (por isso, tem dupla cidadania). Depois de passar quase toda a vida no Brasil, ele diz que tentou a vida nos EUA, mas acabou deportado.

Descobriram que eu vivia há três anos ilegalmente lá.

Culto (fala quatro línguas), ele diz ter perdido todos os bens após ser descoberto vivendo ilegalmente na terra do Tio Sam. Com saudade da terra natal, retornou ao Brasil há três meses.

Não entrei em contato com meu pai por vergonha, ele pensa que estou nos EUA conta.

Em busca de um lugar para dormir, ele diz ter sido rejeitado até por amigos de infância.

Pelo menos, trabalho como operador de telemarketing e recebo um salário mínimo por mês.

Secretário: alguns rejeitam

as normas

As vagas em abrigos disponibilizadas pelo município são insuficientes para toda a população de rua da cidade. No total, a Secretaria Municipal de Ação Social mantém 53 espaços, entre próprios e conveniados, com cerca de 2.300 vagas.

Mesmo assim, o secretário Fernando William garante que a sua pasta está atuando para ampliar o número de leitos. Ele afirma ser difícil retirar as pessoas das ruas devido a uma cultura que estaria entranhada.

Muitos reagem ao serem abordados e não querem ir. Na rua, eles não têm horários, evacuam e fazem sexo em qualquer lugar argumenta. Certa vez, um homem chegou a evacuar em frente a uma ambulância.

O secretário também rebateu as acusações de maus-tratos e falta de acompanhamento e cursos profissionalizantes para os sem-teto.

Duvido muito que isso aconteça (agressões de funcionários), e caso ocorra, o autor será encaminhado à polícia. Sobre atividades profissionalizantes, temos diversos cursos para aqueles que não têm um ofício, além de encaminharmos muitos desses indivíduos para atuarem em obras do PAC informa. Em relação à distância, somente no Centro do Rio existem três albergues com 250 vagas, fora o Hotel Popular, com diária de R$ 1, do governo estadual.

William cita os benefícios dos abrigos:

Antes, eram campos de concentração. Hoje, existe uma série de atividades, cinco refeições e, em alguns, até piscina e campo de futebol, como o de Paciência.