Prefeitura também teme o mar

André Balocco, Flávio Dilascio , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um dia depois de o JB publicar, com exclusividade, um amplo estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) sobre as alterações no clima e seus efeitos na costa do Rio, o superintendente de Mudanças Climáticas da prefeitura, Nelson Moreira Franco, contactou o professor David Zee autor do trabalho para colaborar com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Nélson solicitou ao oceanógrafo a íntegra do estudo para incorporar alguns dados ao programa a ser apresentado pela secretaria no seminário Chuvas de Abril, lições e soluções. Promovido pelo JB, o evento será realizado na próxima segunda-feira, no auditório do Clube de Engenharia, no Centro.

O Nélson Franco vai marcar uma reunião com o grupo revelou David Zee, que é oceanógrafo. Achei interessante, porque era algo que faltava. Não quer dizer que vai resolver, mas já é o início. Não adianta chorar sobre o leite derramado, como Niterói chorou. Temos que aproveitar que ainda não aconteceu nada mais sério no Rio.

Entre os assuntos abordados nas nas reportagens das edições de domingo e segunda-feira, o estudo Mudanças climáticas globais e seus reflexos nas praias oceânicas do município do Rio de Janeiro sugere algumas providências que, se tomadas de imediato, vão evitar muitos transtornos na cidade.

Apresentado no Congresso Brasileiro de Oceanografia, semana retrasada, no Rio Grande do Sul, o estudo aponta os caminhos para atenuar os problemas oriundos da transformação por que passa o planeta. Entre eles, estão a criação de um sistema de avisos precoces sobre a chegada de ressacas, aproximação de ciclones e ocorrência de temporais. De acordo com o documento, seria de bom grado ainda repensar a linha de defesa da costa, e criar normas e códigos para edificações.

São medidas fundamentais para evitar que o Rio tenha o mesmo destino que teve Niterói nas chuvas do último mês de abril diz Zee.

Estrutura litorânea

A construção de casas sobre estruturas empilhadas e a mudança nas zonas costeiras de turismo também serão propostas no encontro entre o oceanógrafo e o superintendente de Mudanças Climáticas do Município.

O estudo aponta ainda a necessidade de instalação, para edificações sujeitas a intempéries, de portas individuais de inundação, a fim de evitar que a água entre nas moradias em dias de chuva forte.

Outro ponto é a revisão nos prêmios de seguro diz o oceanógrafo. Ao Estado, caberia ainda arcar com ações de indenização de remoção das áreas afetadas e criação de subsídios para os que vivem nessas áreas.

Oceanógrafo da UFF contesta partes do estudo

Apesar de ter despertado o interesse da prefeitura, o estudo Mudanças climáticas globais e seus reflexos nas praias oceânicas do município do Rio de Janeiro não é unanimidade entre os oceanógrafos. Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Julio Cesar Wasserman contesta o argumento de David Zee, de que as mudanças climáticas são as causadoras da elevação das marés e da maior propensão a alagamentos no Rio.

Dizer que esses dois fenômenos estão sendo causados pelas mudanças climáticas do planeta é algo muito prematuro, pois não existem estudos avançados sobre isso afirma Wasserman.

Para o oceanógrafo, o aumento das marés nos últimos anos tem sido muito pequeno e seria incapaz de provocar grandes consequências no continente.

Se existe uma subida de marés nos últimos anos é algo entre 4 cm e 5 cm. A degradação das estruturas próximas ao mar se dá por conta de um deslocamento de sedimentos, que ocorre com o vai e vem das ondas, coisa inerente à natureza. A solução para o caso é construir estruturas que não transponham muito a formação original do litoral sustenta o professor.

Sobre o aumento dos alagamentos na cidade, Wasserman dá dois motivos:

O desmatamento excessivo das montanhas, que eram retentoras naturais da água da chuva, e a impermebialização quase total do solo do município são os maiores contribuidores para o não escoamento da água conclui.