Estudo de Uerj revela que mudança climática afeta a orla do Rio

André Balocco , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A menos de uma semana de comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), más notícias para quem vive na orla do Rio: estudo sobre o litoral carioca apresentado pela Faculdade de Oceanografia da Uerj no IV Congresso Brasileiro de Oceanografia, realizado no Rio Grande do Sul na semana passada, aproxima a cidade do cenário do filme 2012. Comandado pelo oceanógrafo David Zee, o estudo chega à conclusão que, diante da maior incidência de ressacas, por conta das mudanças climáticas no planeta, a faixa de areia de parte da praia de Copacabana está com os dias contados. Até mesmo as normas técnicas que regem a construção na beira-mar devem ser refeitas.

Não dá mais para construir perto do litoral, porque o mar vai comer, vai avançar diz Zee, impressionado com o que tem visto.

Presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães afirma que o mar está apenas "usando o espaço que lhe é de direito".

Parte da areia foi aterrada para a construção da Avenida Atlântica, o mar precisava desse espaço argumenta. Quando se anuncia uma ressaca, os donos de quiosques constroem barricadas com sacos de areia afim de evitar que o mar invada seus banheiros, cozinha e depósito subterrâneos.

Também coordenador do Mestrado em Meio Ambiente da Universidade Veiga de Almeida, Zee diz que a diminuição da faixa de areia nos postos 5 e 6 é apenas a ponta do iceberg que descongela.

Normalmente, a largura da praia de Copacabana, desde o aterro nos anos 60, varia de 80 a 120 metros. Em situações extremas de ressacas, diminui para 40 a 60 metros. Nunca vi do jeito que está agora espanta-se, numa referência ao fato de a água, por vezes, bater no calçadão. A tendencia é piorar.

E essa piora, diz Zee, já pode ser percebida no Posto 6, por exemplo. A altura entre o calçadão e a areia, antes de meio metro, hoje chega a quase dois metros. A foto abaixo, tirada segunda-feira, deixa claro o nível da areia estava até bem pouco tempo atrás. Diante do poste, surgiram as pedras do enrocamento que protege o calçadão. Algumas delas já foram tragadas pelo mar; outras estão descendo, pouco a pouco, ressaca a ressaca, em direção ao oceano.

No Posto 5, o fenômeno se repete. Na última grande ressaca, em março, o enrocamento ficou exposto diante dos quiosques da Rua Djalma Ulrich. Até hoje, percebe-se uma ou outra pedra na areia e os barraqueiros foram obrigados a encostar suas barracas nas pedras portuguesas. Pode-se perceber ainda que o mar vem quebrando mais ao fundo, como acontecia antes do aterro.

Entrevista: "Os prédios estão mais vulneráveis", alerta David Zee

Diante desta nova realidade, quais as providências?

A primeira coisa que precisa ser feita, de imediato, é reformular a estratégia de enfrentamento da ressaca, desenvolver um programa de monitoramento constante através de bóias, entender como a coisa está evoluindo localmente. A segunda é um reestudo das normas técnicas das construções costeiras. Não dá mais para construir tão próximo ao litoral, porque o mar vai comer, vai destruir.

Como evitar que a areia continue sendo roubada?

Uma barreira de contenção de sedimentos e replantar a vegetação rasteira ajudariam.

A mudança na direção dos ventos que trazem a ressaca causa preocupação a quem vive em prédios antigos?

Sim, os ventos estão mais intensos. É preciso a elaboração de novas normas técnicas para o dimensionamento das suas vidraças, pois há risco delas se espatifarem.