A mais difícil das pacificações

Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO - Inaugurada em 16 de fevereiro do ano passado, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus, em Jacarepaguá (Zona Oeste), segue enfrentando desafios maiores do que as demais até então implantadas na cidade. Quinze meses após a chegada dos policiais, prisões de traficantes de drogas ainda são constantes na região, que concentra aproximadamente 50 mil moradores numa área de mais de 135 mil metros quadrados.

De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), no Morro Santa Marta, local onde foi implantada a primeira UPP, em dezembro de 2008, o número de prisões aumentou 33,3%, nos 12 meses que sucederam a pacificação. Já na Cidade de Deus, esse percentual chegou a 242,6% 185 presos, contra apenas 54 pessoas no mesmo período do ano anterior.

Para o comandante da unidade, o capitão José Luiz de Medeiros, que assumiu o cargo no dia 29 do último mês de março, a favela ainda vive um processo de pacificação.

Foram 40 anos de dominação do poder paralelo, é normal que ainda existam pessoas com algum tipo de ligação com o tráfico de drogas avaliou. De fato, a dimensão, o número de acessos e a questão cultural fazem da Cidade de Deus um lugar que necessita de um cuidado especial. Por exemplo: quem conviveu com marginais durante anos, acabou não sendo receptivo com a polícia, mas o quadro já está mudando. Sei que ainda há venda de drogas, mas com a ajuda dos moradores, estamos conseguindo prender quem insiste em traficar.

Devido ao extenso território, o efetivo da UPP da Cidade de Deus foi ampliado ao longo do último ano. Hoje, são 323 homens, 47 a mais do que no dia da implantação. Apesar disso, os moradores ainda reclamam.

São muitas localidades. Acredito que 500 homens seria o quantitativo ideal opina o presidente da associação de moradores União Comunitária Cidade de Deus, José Neves. A coisa mudou de cenário. Antes, era fuzil e pistola por todos os lados. No entanto, a venda de droga ainda existe, o que poderia ser combatido com mais policiais.

Atualmente, cada policial atende 155 habitantes da região. Com a instalação da UPP na comunidade, os números de registros de roubos de veículos nas duas delegacias da área (32ª DP e 41ª DP) também sofreram queda, de acordo com dados divulgados na última quarta-feira pelo ISP. Em março do ano passado, foram 195 carros roubados, contra 102 no mesmo período de 2010.

A Cidade de Deus tem características únicas. A dimensão, o número de acessos e a questão cultural são predominantes avalia o comandante da UPP dos morros Chapéu Mangueira e Babilônia, no Leme (Zona Sul), o capitão Felipe Magalhães. Para ele, o número de acessos é decisivo:

Nas minhas comunidades, existem apenas duas entradas, o que ajuda a gente a controlar tudo. Na Cidade de Deus é diferente, já que são incontáveis acessos. Além disso, muita gente que vive nos morros do Leme trabalha para formadores de opinião que moram na Zona Sul. Eles perceberam que a ocupação traria benefícios, fato que não ocorreu em Jacarepaguá.