Passeio Público: Área de lazer mais charmosa do Centro está abandonada

José Luiz de Pinho, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Tombado em 1986 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan) e reformado em 2004, quando a prefeitura gastou R$ 1,8 milhão para lhe dar uma nova aparência, o parque do Passeio Público, no Centro do Rio, pede socorro. Uma série de mazelas transforma o aprazível lugar arborizado num enorme jardim fantasma.

São monumentos danificados, má conservação, falta de lâmpadas, holofotes enferrujados, mais de 20 gatos deixando sujeira e mau cheiro por toda a área, além de bêbados e desocupados, que sempre encontram um jeito para usar drogas no local apesar da presença dos guardas municipais. À noite, o entorno do parque se transforma em terra de ninguém, com trombadinhas e homossexuais livres para atuar.

Apenas dois guardas municipais fazem a vigilância do grande parque, o que facilita a ocorrência de alguns furtos. Até as línguas e alguns dentes de bronze das estátuas dos dois jacarés que adornam a Fonte dos Amores foram roubados. Caso parecido com o dos constantes roubos dos óculos da estátua de bronze do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana.

A depredação dos jacarés aconteceu em 2008, quatro anos após a reforma do Passeio Público. Só não sabemos como eles conseguiram quebrar as línguas e os dentes de bronze. Quem roubou descobriu facilidades para levar as peças, e a gente não pode fazer muita coisa, só consertar o que for danificado lamenta Vera Dias, diretora de monumentos da Fundação Parques e Jardins, do município, que administra o Passeio Público.

Os sinais de desleixo são vistos, também, na cabine de madeira dos dois guardas municipais que vigiam a área. O telhado é coberto de lixo e detritos, e a estrutura da cabine está toda quebrada.

O único banheiro que serviria aos frequentadores do Passeio Público está entupido e desativado há mais de seis meses.

O Passeio Público está pedindo socorro urgente! É lindo, mas vive sujo e não há conservação dos monumentos. Havia patos aqui nesse lago, mas sumiram afirma o produtor de moda Alexander Maciel, que mora no Flamengo.

O autônomo João José também critica o descaso com a conservação do parque.

Sou habituê daqui há 20 anos e dá pena de ver como isso está. Levaram até as línguas e os dentes dos jacarés, e a gente não tem nem lugar para urinar. Se mijar em público, ainda vamos presos reclama João, morador do Centro.

Os estudantes também costumam frequentar o parque, mas criticam as condições do espaço.

Sempre viemos aqui. A reforma de 2004 não adiantou nada, porque já está tudo deteriorado de novo. A manutenção é péssima constata Jovian Viana, de 22 anos, aluno da faculdade de história, ao lado das amigas Manuele Oda e Luana Freitas, também universitárias.

Manuele faz coro:

Além da sujeira e da péssima conservação, muita gente deixa de vir ao Passeio Público temendo assaltos e a presença de viciados denuncia a estudante.

Comerciantes do entorno sofrem as consequências

Além da insatisfação dos frequentadores do parque pela falta de conservação, os comerciantes da Rua do Passeio sofrem as consequências de alcóolatras e viciados em drogas, que rondam a área, prejudicandos seus negócios.

O gerente da loja Ponto Azul Lanches que o diga. Segundo ele, diariamente, pedintes vindos do parque entram em seu estabelecimento atrás de lanche gratuito.

É chato, porque incomoda os fregueses que estão lanchando. Na maioria das vezes, eu dou um salgado para evitar problemas revela Antônio Honório, há cinco anos na lanchonete em frente ao Passeio Público, que fica aberto das 7 às 18h.

O jornaleiro Álvaro Arruzzo, que tem uma banca há dez anos em frente à lanchonete, critica a falta de segurança.

Dois guardas municipais para vigiar o Passeio Público são muito pouco. Por isso, os bêbados, que vêm da Lapa, pintam e bordam lá dentro denuncia Álvaro, de 41 anos.

A equipe do JB viu os guardas municipais Sílvio e Torres passarem por uma situação dessas, na segunda-feira, à tarde, quando um homem embiagado dormia no chão junto a um banco do parque. Eles o levantaram e o colocaram sentado no banco.

O maior problema que enfrentamos aqui é com gente alcoolizada. Quem quer beber ou fumar maconha que vá fazer isso lá fora disse o guarda municipal Sílvio.

Não foi o que disse o frequentador do parque Leandro Silva, que estava acompanhado da namorada Roberta Anatrin.

Já vi gente fumando maconha aqui, sim. É que os guardas não vêem porque são só dois e o parque é grande comentou Leandro Silva.

O primeiro parque com jardim do Brasil

Até o busto em bronze do Mestre Valentim da Fonseca e Silva, criador do Passeio Público, foi roubado pouco depois da reforma que o parque sofreu em 2004, em mais um capítulo do abandono do local. Localizado no Centro histórico do Rio, entre a Lapa e a Cinelândia, o Passeio Público foi o primeiro parque ajardinado do Brasil, concebido por um dos maiores artistas do período colonial brasileiro.

Criado em 1783, o parque foi o grande ponto de encontro da população carioca nos séculos 18 e 19. Em seu interior, podia-se contemplar variadas espécies da flora nacional e obras de arte confeccionadas pelo Mestre Valentim, como chafarizes, esculturas e pirâmides.