Álbum da Copa do Mundo vira febre e cativa até adultos entram na onda

Marta Nogueira, Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O sucesso do álbum de figurinhas da Copa do Mundo da África do Sul contagiou jovens e adultos em poucas semanas de circulação. Muitos acreditam que estamos diante da maior febre nacional já registrada desde a Copa do Mundo de 1950, quando os cromos começaram a ser comercializados e colecionados. Até mesmo as esquinas vdo Centro do Rio, onde estão situados os prédios das principais empresas do país, se transformaram em verdadeiros recreios escolares para diversos executivos após o expediente de trabalho. Independentemente da idade, o objetivo é um só: completar o álbum com as 640 figurinhas e acompanhar a Copa do Mundo com detalhes dos jogadores e estádios.

Sou um verdadeiro apaixonado por futebol e não vejo qualquer problema em colecionar mais esse álbum afirma o economista Eduardo Argollo, 25, enquanto bebe um chope com amigos na esquina das avenidas Nilo Peçanha e Graça Aranha. Faltam apenas 50 cromos para completar o meu álbum e estimo que tenha gastado mais de R$ 150 com figurinhas.

Cada um alega ter um motivo especial que justifique tamanho empenho na coleção. Eric Del Barrio, por exemplo, é engenheiro e nasceu na Venezuela. É filho de europeus mãe francesa e pai espanhol e desde a infância nunca completou sequer um álbum de figurinhas. O que desta vez está sendo encarado como uma questão de honra.

Quando eu era criança, o meu pai me dizia que era preciso aprender a negociar. Por isso, só me dava sete pacotes de figurinhas por semana revela ele, que deu início a colação há três semanas. Nos últimos dias, já destinei muita grana do meu salário comprando os cromos da Copa do Mundo. Só faltam 17 para completar o meu álbum.

Seguindo uma linha considerada mais natural, as figurinhas do Mundial também provocam euforia nas crianças em escolas de todo o país. Na unidade Tijuca do colégio federal Pedro II, os cromos se tornaram a grande sensação do horário do recreio.

Gosto muito de futebol, mas considero esse álbum especial por ser a primeira Copa de que eu lembrarei justifica o jovem Geovani Vilardo, 12. Acho prazeroso trocar figurinhas, e numa brincadeira acabo colecionando uma espécie de livro que pode me auxiliar para identificar alguns atletas durante os jogos da Copa da África.

Nem só os homens se interessam pela coleção. Próximo ao Pedro II da Tijuca, na Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, a estudante Gabryela Cunha luta para quebrar o mito de que futebol é coisa apenas de meninos.

Por livre e espontânea vontade, decidi colecionar o álbum, o que vários garotos aqui da escola não estão fazendo revela. Gosto de futebol, vou aos jogos do meu time (Botafogo) e torcerei muito para o Brasil trazer esse hexacampeonato mundial.

De volta ao Centro do Rio, mais precisamente na Rua Uruguaiana, existe um ponto fixo de encontro dos fanáticos . O local passou a ser procurado por muitos que precisam de duas ou três figurinhas para completar a coleção. Alguns comerciantes já tentam lucram vendendo o álbum completo pelo preço estimado de R$ 150, atitude reprovada por muitos colecionadores.

Prefiro gastar R$ 400 e completar o meu álbum com méritos próprios, do que comprar um já pronto. Não tem graça alguma opina o administrador Flávio Moraes.

Se alguns compram, outros roubam: em 21 de abril, bandidos roubaram 135 mil caixas de figurinhas do álbum, em Santo André (SP). A carga, avaliada em R$ 100 mil, teve 80% recuperados pela polícia dois dias depois.

Vendas de figurinhas da Copa já movimentam R$ 15 milhões

A venda de figurinhas do álbum da Copa do Mundo 2010, da editora Panini, já movimentou cerca de R$ 15 milhões nos últimos 20 dias em todo o país, segundo Caruzo, gerente de distribuição das 78 bancas de jornais do Centro e da Zona Sul. São entregues, diariamente, em torno de 1 milhão de pacotes, cada um com cinco unidades. Segundo especialistas, o produto ainda provoca, indiretamente, a promoção de jogadores, patrocinadores e pontos de venda. A editora Panini não divulga os números de produção.

Se, ao completar um álbum, o consumidor não comprar figurinhas repetidas o que é tecnicamente impossível o colecionador terá gasto R$ 96. O Jornal do Brasil apurou que no camelódromo da Uruguaiana, no Centro do Rio, há quem venda todas as figurinhas por R$ 200. Somente nas bancas do Centro e da Zona Sul foram recebidos 60 mil pacotes de cromos para a venda.

O professor de marketing esportivo da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio (ESPM-RJ), Stephan Younes, destaca que o jogador que vai para o álbum se eterniza. Algumas vezes, o atleta nem é selecionado para a Copa do Mundo, pois as seleções escolhidas são da Copa das Confederações , alerta Younes, que também junta as figurinhas e troca com seus alunos na faculdade.

O jogador que aparece em um álbum com a camisa da seleção recebe atestado de excelência analisa Younes. O patrocinador estampado na camisa também se destaca.

O professor também ressalta que o apelo emocional que envolve a prática também é muito forte. Pais e filhos participam juntos do hábito e ensinam um para o outro detalhes sobre jogadores, técnicos, marcas que os envolvem e sobres os clubes.

A indústria esportiva no país movimenta R$ 31 milhões anualmente, de acordo com o professor de MBA em Marketing Esportivo da Fundação Getúlio Vargas Rio (FGV-RJ), Luiz Henrique Gullaci. As camisas dos jogadores são lembradas para sempre pelos torcedores e o álbum é mais uma forma de registrar esta passagem.

O diretor comercial e de marketing da editora Panini Brasil, Marcio Borges, conta que o sucesso do álbum pode ser comprovado pelos internautas no site www.torcidapanini.com.br. Mais de 10 milhões de pessoas interagiram com o assunto álbum da Copa do Mundo em apenas sete dias nas principais comunidades.