JB 119 anos: O dia em que o jornal não saiu contra o arbítrio

Jornal do Brasil

RIO - A ingenuidade e inexperiência dos jovens censores militares diante das pequenas ironias publicadas na edição de 14 de dezembro de 1968 teria lhes custado, soube-se depois, muitas chacotas entre seus companheiros de caserna. A reação do regime foi forte, prenúncio do garrote que seria armado contra o jornal. No mesmo dia, José Sette Camara, ex-embaixador e então diretor do JB, foi preso por militares e levado não se sabia para onde.

A presidente do jornal, condessa Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro veio para seu gabinete na Avenida Rio Branco na tarde de sábado e fez saber a interlocutores do governo militar que, enquanto Sette Câmara permanecesse preso, o JB não circularia.

A edição dominical estava pronta, recheada de anúncios. Como Sette Câmara só foi libertado no início da madrugada de domingo, os esquemas industriais de impressão e distribuição já tinham sido afetados, e o JB não circulou no domingo.

Num inusitado ato de solidariedade, as agências de publicidade reprogramaram todos os anúncios para os dias seguintes, o que foi objeto de discreto comunicado na primeira página da edição de terça-feira (detalhe ao lado), pois, na época, o jornal não circulava às segundas-feiras.

Não fora esta a primeira vez em que a condessa Pereira Carneiro se defrontara com violência institucional. Em 1964, horas após o golpe que derrubou João Goulart, tropas de fuzileiros navais armadas com metralhadoras invadiram o prédio da Avenida Rio Branco 110, Falando o chefe da tropa ela disse: Meu filho tome conta do jornal. Ele não me pertence, pertence a vocês, pertence ao país .