JB 119 anos: Ironia dribla a censura

Ubirajara Loureiro, Jornal do Brasil

RIO - A chegada dos censores militares à redação foi traumatizante. Era um tempo de medo, com dezenas de pessoas sendo presas e sumindo por semanas, ou meses, nas masmorras dos quartéis.

Os encarregados do cerceamento eram capitães do Exército, jovens e provavelmente sulistas, a julgar pela pele e cabelos claros. eram também alunos da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), que abriga alunos de todas as partes do país.

Evidentemente pouco familiarizados com a rotina de um grande jornal, os militares, pelo relato dos editorialistas que com eles mantinham contato, jamais assumiram qualquer atitude prepotente e sem polidez. A prepotência era do regime e justificava a presença dos corpos estranhos e fardados na redação. Mas mesmo assim eram rigorosos no exame das reportagens e artigos de opinião. Seu controle baixava à minúcias: entre elas a de que o golpe militar de 1964 deveria ser impresso e denominado como revolução, com R maiúsculo.

A fúria da tesoura era implacável. No dia em que chegaram à redação vetaram a publicação de artigos, editoriais e reportagens já paginadas.

Ficou claro para os que permaneciam, e com o conhecimento dos chefes, que a ironia seria a solução não apenas para tapar os buracos, mas, especialmente, para mostrar aos leitores que algo anormal estava acontecendo. O espaço do editorial, voz e texto do próprio jornal, qualquer que seja, sempre reservado a grandes temas nacionais e internacionais, foi preenchido por fotos da área de esportes. Uma missa comum foi transformada em chamada de primeira página, aludindo à edição do AI-5: Ontem foi o dia dos cegos . Um drible em cima do fato, já que a data era verídica.

A mim coube, por necessidade de última hora, dar os elementos para a chamada de meteorologia, habitualmente publicada num pequeno retângulo, no alto da primeira página. Nesse clima, não tive dúvidas e escrevi: Tempo negro, ar irrespirável , etc. Só lamento até hoje que um copydesk, designado pelo então editor Alberto Dines, que aprovara a ideia, tenha cortado o que considerava um fecho de ouro para a chamada da meteorologia. Não há perspectiva de melhoria para os próximos anos .