Um senhor nó no trânsito

Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um grande evento da Igreja Universal do Reino de Deus reuniu nesta quarta-feira cerca de 1 milhão de pessoas na Enseada de Botafogo e provocou um verdadeiro nó no trânsito na Zona Sul, com reflexos até o Centro do Rio. Diante dos problemas, a prefeitura assumiu a responsabilidade por ter autorizado o evento, mas culpou os organizadores, que teriam dado informações incorretas sobre a quantidade de ônibus que trariam os evangélicos de vários pontos do estado. Em nota, o prefeito Eduardo Paes prometeu não mais autorizar eventos desse porte na Praia de Botafogo. Procurados os representantes da Igreja Universal não foram localizados nesta quarta pelo JB.

A previsão inicial era de que aproximadamente 100 mil pessoas comparecessem. Segundo a Polícia Militar, porém, o contingente foi dez vezes maior, e o esquema especial montado de véspera pela Guarda Municipal, em parceria com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio), não foi suficiente para evitar o caos.

Quem não tinha qualquer relação com o evento, foi quem mais sofreu. Seguindo de Copacabana para o Aeroporto Santos Dumont, os universitários Pedro Henrique Soares e Renan Farnaluti perderam o voo para Vitória (ES), devido aos muitos engarrafamentos.

Isso é um absurdo. Estamos há duas horas num congestionamento interminável. Não é possível a prefeitura autorizar um evento dessas proporções num espaço como a Enseada de Botafogo e ainda me fazer perder grana reclamou Pedro, retido no Viaduto Pedro Álvares Cabral, um dos acessos à Praia de Botafogo.

Um médico que preferiu não se identificar contou que saiu da Urca às 16h e só chegou em Copacabana, a menos de dois quilômetros, às 19h. O pior é que ele tinha um paciente para atender.

Quem seguia nos ônibus normais optou por descer e caminhar, o que provocou inveja no cobrador Marcos Ribeiro, da linha 433 (Leblon Vila Isabel).

Já faz mais de duas horas que deixamos o Leblon e ainda estamos aqui em Botafogo. Como precisamos fazer três viagens, creio que trabalharemos mais do que o normal em pleno o feriadão lamentava.

O desrespeito de alguns condutores de coletivos fretados para transportar os fiéis aumentou o caos, já que paravam em qualquer lugar.

É rapidinho. O pessoal desce, e fica tudo bem afirmou, em tom irônico, um motorista.

Segundo a Guarda Municipal, foram utilizados 2.500 ônibus pelos evangélicos. O planejamento previa que os coletivos fossem estacionados nas pistas do Aterro do Flamengo e nas faixas da direita das avenidas Presidente Vargas, Rio Branco e Rodrigues Alves, no Centro. Ainda segundo a GM, os ônibus flagrados fora desses pontos foram multados.

Comandante do 2º BPM critica a prefeitura

O tenente-coronel Antônio Carballo, comandante do 2º BPM (Botafogo), foi veemente ao criticar a prefeitura por autorizar o evento da Igreja Universal. Ele afirma ter alertado a 15ª Região Administrativa e a Subprefeitura da Zona Sul sobre o possível colapso que a região poderia sofrer com a presença dos cerca de 2.500 ônibus que transportaram os fiéis até a Enseada de Botafogo.

Recomendei que o estacionamento dos coletivos fosse feito nas áreas do 1º BPM (Estácio) e do 13º BPM (Praça Tiradentes) declarou. Se eles disseram que planejaram estacionar os ônibus no Aterro e no Centro, a ação foi mal feita, já que havia carros parados por toda a extensão de vias principais do bairro, como as ruas Voluntários da Pátria, São Clemente e Mena Barreto.

A Polícia Militar atuou com cerca de 200 homens para garantir a segurança do evento, mas até o início da noite nenhuma ocorrência havia sido registrada. Além do batalhão da área, homens de todas as outras unidades da capital foram deslocados para a Praia de Botafogo, incluindo os do Batalhão de Choque.

A Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) deslocou 10 agentes para fiscalizar ambulantes no evento. Segundo o supervisor André Onofre, o objetivo era apenas organizar a distribuição dos ambulantes. Por isso, não houve qualquer apreensão.

Associações de moradores também protestam

Quem mais sofreu com o evento nesta quarta-feira na Enseada de Botafogo foram os moradores do bairro. Além de aturar o barulho e a sujeira deixada, os que tentaram sair de casa ainda ficaram presos nos inúmeros engarrafamentos que pararam a região. A presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), Regina Chiaradia, reclamou de ter perdido um compromisso por causa do trânsito.

Está tudo parado, não tem como sair. Eventos assim são um terror para os moradores. São eleitoreiros. Além do trânsito, existem as poluições sonora e ambiental. Isso deveria ser organizado em um lugar apropriado. A Enseada não tem infraestrutura para essas coisas revoltou-se.

Paulo Giffoni, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Humaitá (Amahu), também criticou o caos.

O trânsito no Humaitá parou, tive que deixar meu carro no Flamengo. Não existiu um mínimo de planejamento, nem do estado nem do município.

Apenas Mauro Roberto Vidal, da Associação de Moradores e Amigos da Glória (Amaglória), saiu em defesa do evento.

Não podemos ser radicais, de vez em quando tem que acontecer alguma coisa, não? Para uma cidade como o Rio, eventos assim são normais argumentou.

(Marcelo Fernandes)