Uma noite de dor

Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Logo que a nossa equipe estacionou o carro na Estrada Viçoso Jardim, pude perceber o tamanho do drama. Muitas pessoas gritavam os nomes de seus parentes em meio a um mar de escombros e lixo. Enquanto alguns usavam enxadas para tentar localizar os familiares, outros estavam sentados num terreno extremamente fedorento cavando com as próprias mãos. Para onde eu olhava, via pessoas aos prantos. Então, me aproximei de um jovem sentado e com as mãos completamente imundas. Antes da pergunta, ele começou a gritar.

Minha mãe, meus irmãos e minhas três primas estão aqui debaixo, alguém me ajuda!

O ambiente se tornava ainda mais atordoante com o barulho de dois helicópteros que pairavam com grandes luminárias. O motivo? Por medida de segurança, a Ampla, empresa de energia elétrica de Niterói, cortou o fornecimento de luz em todo o Morro do Bumba, o que gerava uma escuridão das mais aterrorizantes.

Aos poucos, a Defesa Civil foi conseguindo organizar a ação de resgate. Grades de isolamento foram instaladas e os jornalistas foram colocados numa área relativamente distante do ponto das buscas. A correria e o barulho incessante de choro desnorteavam as pessoas, muitas completamente estafadas de buscar em vão pelos familiares. Conforme elas eram afastadas, a emoção se manifestava das mais diversas formas. Uma mãe implorava aos policiais.

Não me deixa assim tão longe do meu filho moço gritava Sabrina Carvalho, 27, deseperada pelo desaparecimentos do pequeno Caique, de apenas 6 anos, no meio da infinidade de terra.

O tempo passava, e as pessoas ficavam mais aflitas. Elas sabiam que cada minuto poderia representar a vida de alguém muito querido. Por volta da meia-noite, três retroescavadeiras começaram a remexer os escombros. Em pouco tempo, três corpos foram encontrados. Por volta das 2h, o mais emocionante dos resgastes: quando corpos de mãe e filha foram retirados, abraçados. A informação causou um frisson nos moradores, que insistiam em acompanhar os trabalhos. Como o número reduzido de curiosos em volta, a imprensa ganhou uma mais liberdade para trabalhar. Nesse momento, me aproximei do secretário de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes, e ouvi o seguinte:

Não tenho mais esperança de localizar sobreviventes. A terra tem a particularidade do sufocamento, o que seria diferente se estivéssemos falando de uma queda de um prédio, onde as lajes podem criar vãos onde as pessoas podem esperar por socorro. Estou certo de que estamos diante da maior tragédia que o Rio enfrentou nos últimos tempos, maior até do que o caso ocorrido na virada do ano em Angra dos Reis.

A minha confirmação veio com o amanhecer do dia. Um imenso rastro que tinha início no topo do morro e só terminava na calçada (algo em torno de 600 metros de distância) me fez ter exatamente a mesma impressão do secretário. Me impressionou a altura dos escombros cerca de 1,5m e a quantida enorme de terra. Ao me aproximar de mais um entrevistado, já pela manhã, uma grande tristeza definitivamente tomou conta de mim, dando-me a verdadeira dimensão da tragédia que no Morro do Bumba.

Perdi 10 parentes, entre eles o meu pai e minhas duas irmãs lamentava, olhando fixamente para a área devastada, Paulo Roberto dos Santos, 35.