Enchente: contato com a água traz grande risco

Marcelo Gigliotti , Jornal do Brasil

RIO - O risco de contrair doenças, muitas delas que podem levar até a morte, é muito grande quando há enchentes. É muito comum ver pessoas atravessando trechos alagados, na pressa de ir para casa. Mas tal atitude não compensa o risco, segundo especialistas em infectologia. Portanto, quem se aventurou e entrou em contato com estas águas deve ficar atento a sintomas que podem vir a ocorrer, e que não escolhem classe social. Mesmo quem atravessou uma rua alagada no Jardim Botânico, por exemplo, corre o risco de ter contraído uma doença como a leptospitose. Assim como quem enfrentou água numa comunidade carente sob cheia.

A população deve evitar entrar em contato com a água da enchente, permanecendo em local seco e seguro, e esperar a água baixar recomenda Ilana Teruskin Balassiano, microbiologista do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), uma das referências no estudo da doença.

Segundo a especialista, diversos estudos mostram que ocorrem surtos de leptospirose após enchentes. Ela, que trabalha no diagnóstico da doença, recebendo amostras de sangue de pacientes com suspeita de leptospirose, confirma que após enchentes ou chuvas fortes, o volume de testes realizados no Laboratório de Zoonoses Bacterianas do IOC, no Rio de Janeiro, aumenta bastante.

E engana-se quem acredita que a bactéria leptospira só entra no corpo se houver algum ferimento. Ela penetra na pele saudável, diz o infectologista da UFRJ, Edimilson Migowski:

A leptospira é uma bactéria em forma de saca-rolha. Ela consegue encontrar seu caminho para penetrar no organismo através da pele.

A leptospirose é provocada por uma bactéria transmitida pela urina do rato de esgoto. Portanto, quando as ruas alagam, ela circula pelas águas. A doença se manifesta num prazo de 4 a 15 dias, com sintomas como febre, mal-estar, dor nas pernas e calafrios. Se afetar o fígado, o doente pode ficar com a pele e os olhos amarelados. O sistema renal também pode ser atingido.

Em alguns casos, a doença provoca insuficiência renal e pode até levar ao óbito diz o infectologista da UFRJ.

Migoswski recomenda a quem se expôs à água das enchentes observar os sintomas. Alguns médicos, segundo ele, chegam a receitar antibióticos como profilaxia.

Uma vez diagnosticada a doença, o tratamento é feito à base de antibióticos e hidratação.

A hidratação ajuda a eliminar a a bactéria leptospira do organismo do paciente diz Ilana, do Instituto Oswaldo Cruz.

O contato com a água contaminada das enchentes pode provocar doenças gastrointestinais. Alguns parasitas, presentes no esgoto, também penetram na pele, mesmo saudável. Os sintomas são diarreia, dor abdominal, gastrite e urticária.

O problema é que estas doenças se manifestam um a dois meses após o contato com a água contaminada. E a pessoa acaba não relacionando os sintomas à chuva diz Migowski.

Portanto, quem se aventurou e enfrentou a água acumulada com a chuva e apresentar sintomas de doenças gastrointestinais, deve procurar um médico e relatar este contato.

Além das doenças adquiridas por contato com a pele, há aquelas provocadas pela ingestão da água contaminada. Isto ocorre quando a pessoa leva a mão suja à boca, ou mesmo quando engole respingos.

Algumas destas doenças também levam até dois meses para manifestar os sintomas, como parasitoses intestinais. Outras podem evoluir mais rapidamente, no caso de enteroviroses.

A pessoa pode contrair até meningite viral, cuja incubação leva de uma a duas semanas diz Migowski.

Surtos de hepatite A ocorrem após enchentes

A febre tifóide e a hepatite A são outras doenças bem comuns de ocorrerem após enchentes. Muitas vezes, a água contaminada invade cisternas. O vírus da hepatite A demora de 15 a 50 dias para se manifestar. Os sintomas principais são fezes claras e urina escuras. O fígado pode se comprometer ao ponto de ser necessário fazer um transplante.

Pessoas que ficaram muito tempo em contato com a água contaminada podem procurar um médico, para saber se ele recomenda vacinação contra a doença, que pode ser feita até 15 dias após o contato com a água diz o epidemiologista da UFRJ Edimilsom Migowski.

Quanto à poeira que é levantada após a lama secar, o infectologista Reinaldo Heinze, da Universidade Federal do Espírito Santo, diz que ela não oferece riscos, se inalada.

Pode no máximo causar uma irritação. Mas as bactérias morrem quando a lama seca. Além disso, o movimento ciliar que ocorre nos brônquios expele partículas de poeiras que são inaladas diz. Mas é claro que pessoas que ficarão expostas durante muitas horas a esta poeira devem se precaver e usar máscaras protetoras.