Depois da tragédia, a dor da espera

Marcelo Fernandes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A dor manifestada pelos parentes de vítimas das chuvas que atingiram o estado não terminou com as mortes. Nesta quarta-feira, cerca de 500 pessoas tiveram que aguardar por até 10 horas pela liberação dos corpos no Instituto Médico Legal (IML), em São Cristóvão, onde ficou concentrada a maior parte dos cadáveres o número oficial não foi divulgado.

Durante a difícil espera, um morador de Niterói chegou a receber voz de prisão de um agente da Polícia Civil, que o acusou de desacato. Familiares reclamaram e a população ameaçou invadir o local. O rapaz foi liberado, mas policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) foram chamados para garantir a ordem.

Após o tumulto, um funcionário ainda comentou que o povo só respeita mesmo quando vê as armas . No IML, agentes não deram entrevistas. De acordo com a assessoria da Polícia Civil, o que ocorreu foi apenas um problema menor .

Parte da população não concordou com o tratamento recebido, e reclamou de falta de funcionários.

Só depois que houve o tumulto e o pessoal reclamou é que as pessoas começaram a ser atendidas contou a dona de casa Rosane Vieira da Silva, moradora do Morro do Borel, na Tijuca, que perdeu duas netas, de 5 meses e um ano, e ficou na fila por mais de dez horas.

Se (o IML) fosse organizado, muitas pessoas já poderiam estar em casa. Não tem bandido aqui, as pessoas estão sofrendo e eles chamam a Core? Qual a necessidade disso? questionou a cabeleireira Adriana Gomes, de 39.

A burocracia está muito grande. Eles cobram documentos, mas muitas famílias perderam tudo. Parece que eles querem que a gente cave para buscar a documentação que ficou enterrada esbravejou a recepcionista Laís de Carvalho Souza, 21, que perdeu quatro parentes durante o deslizamento de terra no Morro dos Prazeres, no Rio Comprido.

Moradores de fora da cidade do Rio reclamaram de discriminação na hora da liberação dos corpos. A doméstica Keila Cristina, de 23, moradora de Niterói, que perdeu a sobrinha Thaís Alvarenga da Silva, de 9 anos, também criticou o atendimento.

Estamos aqui desde 7h e só agora, às 16h, minha irmã foi fazer o reconhecimento do corpo da minha sobrinha. O que eles estão fazendo aqui é um absurdo, chamando a polícia. Tinham que chamar eram psicólogos para a gente reclamou.

O delegado Marcus Neves, diretor de Polícia Técnica, afirmou que o efetivo no atendimento foi dobrado, e a demora ocorreu em razão da dificuldade do reconhecimento dos corpos sem as identificações.