El Niño e ventos do mar turbinaram as fortes chuvas

Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Calor, umidade alta, frente fria,

O dilúvio que se abateu sobre o Rio de Janeiro terça-feira e na segunda-feira teve como causa uma combinação de fatores, que, somados, aumentaram o volume de chuvas em um só dia, na segunda, choveu mais do que a média histórica do mês de abril. Em primeiro lugar, já havia sobre o Rio condições propícias para instabilidade: tempo quente, em torno de 30 graus, e umidade relativa do ar alta, por volta de 85%. Na segunda-feira, uma frente fria chegou ao Rio, trazendo mais umidade e temperaturas mais baixas. Ela jogou o ar quente e úmido para camadas mais elevadas da atmosfera, formando as nuvens de tempestade, ou Cumulus nimbus, que desabaram sobre o estado. Mas a história não parou por aí. O volume de chuvas foi intensificado por um outro fenômeno.

Na retaguarda desta frente fria, vieram ventos do quadrante Sul, que chegaram a atingir uma velocidade de 75 quilômetros por hora. Este vento traz mais ar frio e úmido, porque vem do Oceano Atlântico. Isto potencializa a frente fria explica o meteorologista Lúcio de Souza, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Não bastassem estes fatores, contribui para a intensidade das chuvas o fato de a temperatura do Oceano Atlântico estar 1,5 graus Celsius mais alta do que o normal para esta época do ano.

Com a temperatura do mar mais alta, há mais evaporação e mais umidade chegando à costa. Este fenômeno dá suporte para chuvas mais intensas comenta do meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lincoln Alves.

El Niño

E não são apenas as águas do Oceano Atlântico que estão mais quentes. As do Oceano Pacífico também, em decorrência do fenômeno El Niño, que, quando se manifesta, traz mais instabilidade e chuvas paras as regiões Sudeste e Sul do Brasil, o que realmente vem ocorrendo desde março no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Esperava-se que o El Niño fosse perdendo a intensidade no outono. Mas o que se verifica é que ele ganhou mais força, contribuindo ainda mais para a grande instabilidade e a intensidade de chuvas que estamos atravessando agora diz Lúcio de Souza, do Inmet.

Outro fator que atua sobre o clima da cidade do Rio de Janeiro é a sua topografia. Os tais ventos do quadrante sul batem nos maciços da Tijuca e da Pedra Branca, fazendo a umidade ascender, provocar mais nuvens e consequentemente mais tempestades, de acordo com Lúcio de Souza, do Inmet.

A grande intensidade de chuvas sobre o Rio de Janeiro já estava prevista, segundo a meteorologista do Inpe Maiane Araújo. O que não se podia, nem se pode, segundo ela, é prever o volume de chuvas.

Os modelos matemáticos usados na previsão do tempo não indicam qual será o volume, embora terça-feira para uma grande intensidade. Mas prever o volume, não tem como diz a especialista do Inpe.

Segundo ela, a frente fria deve deixar o Rio de Janeiro quarta-feira, o que não quer dizer que não choverá mais.

Há, por trás desta frente fria, o que se chama uma pista de ventos trazendo umidade do oceano. Portanto, ao longo da semana, ainda haverá muita instabilidade ou condições de chuva diz Maiane Araújo.

Domingo melhora

Segundo ela, nesta quarta-feira está mantido o estado de alerta para grandes volumes d'água. Mas a partir de quinta-feira, embora o tempo continue instável, a tendência é que as precipitações comecem a diminuir.

Provavelmente, o tempo só começa a melhorar a partir de domingo. Até lá, vai chover diz a meteorologista do Inpe.

Lúcio de Souza, do Inmet, também faz uma previsão semelhante. Segundo ele, até quarta-feira a noite o tempo fica pesado, com grandes chances de temporais.

Embora, grandes tempestades estejam associadas ao verão, o outono, por ser uma estação de transição, também pode trazer chuvas fortes, como está ocorrendo.

No outono é bem comum ocorrerem episódios como os temporais destas segunda e terça-feira no Rio. Mas à medida em que o inverno for se aproximando, as chuvas vão diminuir de intensidade diz Lincoln, o climatologista do Inpe.