Ambientalista entrega dossiê e lista para evitar vexame na Olimpíada

André Balocco, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Pegue as fotos de alguns cartões postais do Rio que são famosos em todo o mundo. Acrescente a elas um lixão vertical em Copacabana, uma lagoa expelindo esgoto in natura na Barra, uma baía assoreada, um arroio que deveria estar cristalino desde os Jogos Pan-Americanos, mas que continua negro, e a foz de um rio que cruza boa parte da Zona Sul que, por causa das ligações clandestinas de esgoto e de uma estação de tratamento ineficiente, desemboca escuro e fétido na praia do Flamengo. Ponha ainda o despejo de óleo em áreas industriais de Niterói e rios desembocando na baía que será sede das competições de vela repletos de esgoto. Agora espalhe isto para todo o mundo durante a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 e imagine o estrago na imagem da cidade. Imaginou?

Para evitar que o Rio passe pelo vexame de ter seu lado B retratado no lugar de suas maravilhas, o ambientalista Mário Moscatelli criou o projeto Olho Verde e decidiu dar uma 'mãozinha' às autoridades: fez um dossiê apontando todos problemas que ameaçam o Rio, e as soluções que, acredita, são as mais recomendáveis para os casos. O gargalo, alerta, está apertando mais e mais. Porém, ainda há tempo de reverter a situação e evitar que a imagem de cidade fique irremediavelmente comprometida nos Jogos.

Sempre nos disseram que não havia dinheiro. Agora que há, com a conquista da Copa e da Olimpíada, decidi ajudar - diz Moscatelli, o homem que, sozinho, reflorestou a Lagoa Rodrigo de Freitas nos anos 80. Estava cansado de ver a sequência de mortandade de peixes na Lagoa e dei minha contribuição.

A contribuição de Mário passa pela boa vontade das autoridades. Contemporâneo de lutas de Carlos Minc (ministro do Meio Ambiente), Marilene Ramos (Secretária estadual de Ambiente) e Carlos Alberto Muniz (secretário municipal), entregou o dossiê à trinca apostando que, apesar de estarmos em ano político ("quando tudo pode acontecer"), nenhum dos citados quer ter seu nome associado ao vexame. Para Moscatelli, a iniciativa de cobrar uma postura das autoridades, e marcar posição, vai dar certo.

Estou fazendo a minha parte. Acredito neles e acredito que farão a parte deles.

Ao diagnóstico, então.

Placa com a frase 'Sorria...' já não simboliza mais a Barra

Sorria, você está na Barra. A placa, que mexeu com o imaginário de gerações nos anos 70 e 80, não retrata mais o que significa cruzar o Túnel do Joá. Além do trânsito engarrafado pela falta de projeto de transporte de massa, e dos índices de violência causado pelo crescimento desordenado, os moradores assistem a agonia lenta de seu complexo lagunar. A imagem do "caldo de fezes escorrendo em direção ao mar", como Moscatelli definiu a foto maior, tende a ser o novo símbolo da região.

São seis milhões de metros cúbicos acumulados na Lagoa da Tijuca, ou o equivalente a 600 Maracanãs relata.

O temor de Moscatelli fica por conta da chuva. A água que lava e renova a lagoa empurra a sujeira Quebra-Mar afora, contaminando a praia.

O emissário ajuda, mas não cessa o problema. A ocupação desordenada nas baixadas de Jacarepaguá e encostas deve ser combatida.

Estação desperdício

Por ocupação desordenada entenda-se favelas na beira da lagoa e nas encostas. A estação de tratamento de Arroio Fundo, que deveria ter sido concluída para o Pan-Americano, é uma frustração. É o encontro das águas do arroio com as da lagoa do Camorin que gera o contraste da foto acima. Mas não se iluda: o verde abacate é resultado das cianobactérias, que se alimentam de esgoto.

Há ainda a multiplicação de gigogas ocupando vários hectares do espelho d'água.

Rio Carioca: de fonte de água límpida a 'cloaca'

A 'cloaca da Glória'. É assim que Moscatelli define a Foz do Rio Carioca, que de tão imunda e negra ainda consegue contrastar com as já poluídas águas da Baía de Guanabara, como se pode perceber na foto ao lado. O 'valão', em plena orla da Zona Sul, deságua muito perto da Marina da Glória, que será sede das competições náuticas na Olimpíada de 2016. O problema já aconteceu nos Jogos Pan-Americanos de 2007, quando os competidores reclamaram do mau-cheiro e foram orientados e tomarem cuidado com a água, evitando a ingestão em caso de mergulho acidental.

Para evitar o papelão, uma solução simples: investimento para que a estação de tratamento pela qual passa o rio, no Parque do Flamengo, volte a funcionar a contento, já que impedir as ligações clandestinas de esgoto é tarefa, na sua opinião, difícil.

É preciso que entre de novo em operação diz.

Arcos da Lapa

O Rio Carioca está intimamente ligado à história da cidade, pois em 1503 o invasor português construiu uma casa em sua foz, onde hoje é a Praia do Flamengo, e os índios a chamaram de Cari Oca (Casa de Branco). Sua água serviu à cidade e, para chegar ao Centro, construíram um aqueduto: os Arcos da Lapa.

Sobre lixões, Gramacho e outros aterros desordenados

As palavras Gramacho e polêmica sempre andaram de mãos dadas no Rio de Janeiro. Mas nem só deste dramático aterro vive o problema dos lixões que assolam todo o Grande Rio. Além de pedir uma solução para a questão daquele que afeta diretamente o município de Duque de Caxias, Mário Moscatelli aponta outros lixões e similares como causadores de enchentes na Baixada Fluminense. O destino dos sedimentos e do lixo varrido pelas chuvas é, invariavelmente, a água da Baía de Guanabara.

É preciso que se faça uma ordenação do processo generalizado de aterros nesta região defende o ambientalista, acostumado a sobrevoos flagrando a situação. Muitos desses aterros ocorrem sem qualquer orientação técnica, reduzindo violentamente a capacidade do solo de absorver a água.

Na Baía, 3 milhões de m2 de lama e lixo no espelho d'água

A pergunta sobre se, um dia, a Baía de Guanabara desaparecerá, pode soar fora de propósito, estranha até para quem já viu golfinhos em suas águas há pouco mais de 30 anos. Mas a necessidade cada vez maior de dragagem para a entrada de navios de grande calado mostra que a previsão não é alarmista. Para Moscatelli, em 20 anos a Baía terá nada menos do que 5,5 milhões de metros quadrados de lama e lixo substituindo seu espelho d´água, caso persista o quadro de despejo de sedimentos e esgoto por conta da ocupação irregular das margens dos rios que a alimentam. Hoje, são 3 milhões.

Esta foto é a margem do Rio Sarapuí-Iguaçú. O grande problema é ocupação desordenada da bacia hidrográfica, que gera lixo e sedimentos, além de esgoto narra.

A solução, acredita, passa por um investimento maciço aliado a uma política pública de habitação e transportes, que remova e urbanize as favelas, criando condições mais humanas para a população que depende do transporte. Assim, pensa, evita-se a favelização.

Enquanto isso não existir, a zona vai continuar. Quem paga pela bagunça é o meio ambiente e, consequentemente, a nossa qualidade de vida garante.

Embaixo da Niterói-Manilha, uma paisagem de dar medo

Passar pela Rodovia Niterói-Manilha, nos finais de semana, é sinônimo de sol forte nas praias da Região dos Lagos para a maioria dos motoristas. Mas se um dia quem anda pelo asfalto irregular decidisse parar seu carro e descer para ver de perto os fundos da Baía de Guanabara, o espanto seria imenso. Por debaixo da pista, rios e rios de esgoto escorrem em direção ao mar que um dia abrigou a praia preferida da corte imperial Ramos.

Este aí na foto é praticamente um valão de esgoto - mostra Mário Moscatelli, indignado com a visão dantesca da região. Fica em São Gonçalo.

A indústria da Baía, se não é mais a grande vilã da poluição na região, também deve ser observada com cuidado. A remoção das embarcações abandonadas, que vazam óleo, e a ordenação das atividades dos estaleiros, devem ser prioritárias, pois segundo ele, estão sendo executadas há décadas sem qualquer cuidado ambiental .

É preciso ainda urbanizar as áreas desprovidas de qualquer uso na região aponta.

Por fim, sugere a criação de um comitê formado por ONGs, Ministério Público, Universidades e Tribunais de Conta que supervisione o andamento dos projetos.

Só assim será possível não afetar as competições de vela na Baía de Guanabara, comprometida pelos altos índices de coliformes fecais.