José Gustavo de Souza Costa: O metrô do Rio está melhor

Flávio Dilascio, Jornal do Brasil

RIO - Presidente da Metrô Rio concessionária que administra o metrô carioca desde 1997, e que tem contrato com o Governo do Estado até 2038 , o engenheiro José Gustavo de Souza Costa considera que mesmo com todos os problemas questionados pela população, a empresa atende muito bem a seus clientes. Defensor ferrenho da Linha 1A, ele, que está na presidência da concessionária desde 2005, descartou qualquer hipótese de voltar com a baldeação para a Linha 2 no Estácio. Na entrevista exclusiva ao JB, falou sobre a questão da sinalização das vias, criticou o engenheiro Fernando Mcdowell crítico feroz do novo sistema de integração e disse, que, neste momento, o Metrô estaria preparado para receber uma Copa do Mundo na cidade. Sobre os Jogos Olímpicos, afirmou que êxito na área de transportes dependerá do Governo do Estado, que vem agilizando a expansão dos trilhos até a Barra da Tijuca, localidade que receberá a maior parte dos eventos e instalações. José Gustavo revelou ainda que o projeto da estação Uruguai, na Tijuca, ficou pronto na última semana, e que será finalizado até, no máximo, 2014. O presidente demonstrou também ser defensor da ideia de não finalizar a Linha 1 na estação Uruguai, levando-a ao Méier, passando por Vila Isabel e Grajaú.

Qual foi a sua trajetória até chegar à presidência do Metrô Rio?

Cheguei aqui depois de fazer um bom trabalho na SuperVia (concessionária que administra os trens cariocas), onde comandei a expansão da malha ferroviária do Rio de Janeiro, que hoje transporta 500 mil passageiros por dia.

Semana sim e outra também, o Metrô aparece nos jornais por mais um problema no sistema. Que balanço o senhor faz de tudo o que está acontecendo?

O passageiro do Metrô é um cliente que está acostumado a receber um ótimo serviço e isto permaneceu durante vários anos. Ano passado, a expectativa de melhora era crescente, pois estávamos inaugurando a Linha 1 A. Portanto, se estava vindo uma linha nova, o cliente imaginou que melhoraria mais ainda. Esta expectativa aliada a uma baixa qualidade de entrega contribuíram para criar uma imagem bastante negativa. Eu diria que nos primeiros dias de operação a qualidade do serviço foi muito ruim. Só que isto era um processo que teríamos de enfrentar uma vez ou outra. Nós estávamos fazendo uma alteração no meio do sistema. Não é uma estação a mais ou coisa desse porte. No meio não tem jeito. Ou a gente para de operar por 15 dias, o que era impossível, pois a cidade pararia, ou a gente faz a alteração e se adapta a essas dificuldades do início. Mas acho que agora o sistema está dominado e estamos com uma boa qualidade de serviço.

O senhor considera então que o sistema já está pronto ou ainda está em fase de adaptação?

Sob o aspecto da operação, eu acho que já dominamos este processo, embora algumas coisas ainda faltem para que se complete todo o nosso projeto, tais como acabar a Estação Cidade Nova, construir a Estação Uruguai e a chegada dos novos trens. Este processo ainda vai levar dois anos, mas mesmo assim acho que, neste momento, estamos num nível de qualidade que é melhor do que tivemos em qualquer momento.

A empresa já explicou que parte dos problemas terá solução com a chegada de trens novos em 2011. Até lá, ou seja, nos próximos nove meses, os usuários terão de enfrentar problemas como calor, atrasos, panes no sistema e superlotação?

Não, os usuários não terão de enfrentar estes tipos de problema. Como disse, o maior problema foi a regularidade no primeiro dia. Agora eu lhe explico uma coisa: por que tivemos de operar tão rápido? Foi porque o cliente da Linha 2 era um cliente que estava sofrendo muito. Ele vinha da Pavuna e fazia uma baldeação no Estácio e entrava num trem cheio indo para o sentido que ele queria, que é mais ou menos da Central até Botafogo. Este cliente agora está tendo a oportunidade de fazer uma viagem direta. Sem contar que ele fazia uma viagem que demorava em média 64 minutos e hoje ele faz em 51 minutos, economizando 13 minutos de seu tempo. Isto representa quase meia hora por dia em tempo de condução, uma melhora bem expressiva, que faz com que o cliente do Metrô use o metrô, pois ele sabe que chegará a outro lugar sem engarrafamento. O que as pessoas precisam entender quando se fala sobre superlotação é o seguinte: o trem agora começou a ficar cheio e está democratizado. Em 1998, ele transportava 305 mil passageiros por dia, hoje estamos transportando entre 550 e 580 mil. Agora sim temos um transporte de massa.

No dia 30 de janeiro, o secretário de Transportes, Júlio Lopes, em entrevista ao Jornal do Brasil, reconheceu que o metrô é o meio de transporte que mais preocupa atualmente. Na ocasião, ele disse que a concessionária falhou ao substituir o sistema de sinalização feito por um software próprio por um programa mais moderno, desenvolvido por uma empresa. Segundo o secretário, houve atraso na entrega da atualização deste software, o que teria provocado todos os problemas. O senhor concorda com a avaliação do secretário?

O problema principal não foi a entrega do software. Na realidade, fizemos algumas alterações mas isso não tem nada a ver. A sinalização não foi o problema maior que nós enfrentamos. A questão principal foi a adaptação à nova forma de operar todo o sistema. Graças a Deus, isto já foi superado.

O senhor acha que a Linha 1A sobrecarregou um pouco mais a Linha 1, ou seja, estes passageiros passaram a encontrar trens mais cheios e com intervalos maiores?

Pelo contrário, não vejo por esse lado. A única mudança foi que os passageiros que faziam baldeação no Estácio passaram a deixar de fazer. Para os passageiros da Tijuca, a mudança foi muito boa, assim como para os passageiros da Zona Sul até Botafogo, que se beneficiaram com a diminuição de intervalos. Nas três estações de Copacabana, no entanto, eu diria que houve uma piora na qualidade, porque houve um aumento no intervalo e isto é uma coisa desagradável. Mas não sei também se é um problema tão grande, pois houve uma mudança do intervalo de 4 minutos e 40 segundos para 5 minutos e 30 segundos. Um minuto e pouco eu acho que não faz tanta diferença, pois o nosso sistema continua rápido.

Existe algum estudo para resolver este problema do aumento de intervalo em Copacabana?

A aquisição de novos trens baixará este intervalo para quatro minutos em Copacabana. Este intervalo, inclusive, deve baixar para dois minutos entre Botafogo e Central. Isto fará com que todas as áreas fiquem cobertas.

Na segunda parte da entrevista, José Gustavo de Souza Costa rasgou o verbo contra o engenheiro Ferando McDowell, um dos principais críticos da Linha 1A. Ele falou também sobre a inauguração da estação Uruguai, a chegada do Metrô à Barra da Tijuca e a expectativa de atender a demanda da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016.

Há críticas feitas pelo Ministério Público com base em estudos do engenheiro Fernando McDowell, de que haveria uma inclinação curvada nas obras da linha 1A. O MP reclama também de problemas na sinalização e pede a volta da baldeação no Estácio até que os problemas estejam resolvidos. O Metrô Rio admite voltar a operar no sistema de baldeação na estação Estácio ou considera a Linha 1A capaz de continuar fazendo parte do sistema?

É lógico que não queremos voltar. Seria como passar de cavalo para burro. Nós estamos hoje numa situação muito melhor que estamos antes. É importante saber o que os passageiros do Metrô acham. Fizemos uma pesquisa com eles, através do Ibope, que diz que 60% dos passageiros aprovam a Linha 1A. O que o Fernando McDowell falou mostra que ele está completamente defasado com o atual sistema. Ele falou que nos desafiava a entregar um metrô sem trechos com 4% de inclinação, só que ele se esquece de que ele mesmo projetou a linha 2 com vários trechos com 3,8% de inclinação, o que é quase a mesma coisa. Não vejo nada de errado na inclinação da Linha 1A, pois o limite do metrô são estes mesmos 4%.

Uma das perguntas que os usuários mais fazem é sobre a qualidade do metrô para receber a Copa do Mundo e a Olimpíada de 2016. O senhor acredita que a empresa terá boa estrutura para atuar nestes eventos?

Sim, pois nós estamos melhorando e investindo pesado para que isto aconteça. Temos que fazer alguns pequenos investimentos para a Copa de 2014, embora em se tratando de Maracanã já tenhamos uma estrutura preparada para receber multidões. Se o Maracanã não terá mais capacidade na Copa, julgo que já estamos prontos, pois enfrentamos desafios quase todos os finais de semana e funcionamos muito bem. Com relação aos Jogos Olímpicos, a coisa já muda um pouco, pois o nosso centro de referência será a Barra da Tijuca e o governador está querendo começar as obras o mais rápido possível para levar o Metrô à Barra. Finalizando a linha 4, que começa no final da linha 1, já estamos prontos para 2016.

E quando começam as obras da Linha 4?

Não sei, pois isto depende do Governo do Estado, mas acredito que em muito breve.

Na entrevista ao JB, o secretário de transportes Júlio Lopes admitiu que o Governo Estadual também deixou falhas com a concessionária. Como isto atrapalhou a operação do Metrô?

É evidente que qualquer coisa que falte prejudica a operação. Mas isso são obstáculos que já foram superados, tanto que já estamos operando bem.

Sobre a estação Uruguai, na Tijuca, quando começa o projeto?

O projeto ficou pronto na semana passada, agora estamos na fase de orçamento e aí, depois começaríamos a obra. Mas a Estação da Rua Uruguai temos a obrigação de entregar somente até 2014. Vamos procurar casar sua inauguração com a chegada dos novos trens.

A Estação Uruguai seria a última da Linha 1, ou existe um plano de expansão além dali?

São possibilidades que estamos examinando. Temos olhado muito o projeto original do Metrô, desenhado por um grupo alemão em 1967, onde eles insistem no metrô chegando a Vila Isabel, Grajaú e indo mais ou menos até o Méier. Isto é uma ótima alternativa, e sou favorável a que a expansão siga àquela direção.

Existe ainda o projeto da linha 3, com o Metrô chegando a Niterói?

O metrô para Niterói seria um sonho. É uma missão que gostaríamos de ter. É uma ligação de custo gigantesco, mas não urgente. O governo está examinandoo projeto, e o fará na hora apropriada.