Mas a Lagoa não estava despoluída?

Marcelo Fernandes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um dos cartões postais da Cidade Maravilhosa amanheceu nesta sexta-feira com uma visão nada bonita. Cerca de 12,5 toneladas de peixes mortos foram recolhidos pela Comlurb na Lagoa Rodrigo de Freitas.

O órgão informou que esta quantidade se refere apenas ao serviço diurno, e que cerca de 80 garis iriam continuar o trabalho durante a noite.

As causas da mortandade ainda são controversas. Inicialmente, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente informou que foram apenas 500 quilos de peixes mortos. De acordo com a secretária Marilene Ramos, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), responsável pela conservação da Lagoa vai divulgar as causas do incidente na semana que vem.

O que posso afirmar é que não existe nenhuma relação com o despejo de esgoto que ocorreu há pouco tempo no canal da Visconde de Albuquerque e poluiu a praia do Leblon. A hipótese mais provável é que algas microscópicas tóxicas se desenvolveram com a mudança de clima, causando a mortandade disse a secretária.

Outro motivo que foi considerado, a falta de oxigênio na água, também foi descartado pelo Inea.

Uma equipe nossa mediu os níveis de oxigênio e constatou que estão normais. A mortandade é completamente imprevisível, e muitas vezes depende de causas naturais. As savelhas são muito sensíveis, e a mudança de temperatura que ocorreu nos últimos dias pode ter colaborado para a proliferação das algas afirma a gerente de qualidade de água do Inea, Fátima Soares.

Uma audiência pública está marcada para o próximo dia 10 de março na Assembleia Legislativa do Rio para discutir as causas e a responsabilidade do problema.

As algas que causam a mortandade se alimentam de detritos, esgoto, logo não se pode dissociar a morte dos peixes da poluição. Mesmo com o cinturão para evitar o despejo de esgoto clandestino, ainda existe algum descarte na Lagoa analisa o deputado estadual André Lazaroni (PMDB), que promove a audiência.

A mesma opinião é compartilhada pelo biólogo e professor de Oceanografia da Uerj, Silvio Jablonski. Ele ressalta que somente com o despejo de esgoto, que é rico em nutrientes, as algas teriam condições de proliferar.

A Lagoa passou por um período razoável sem esse problema, e mostrava sinais de melhora na questão da poluição. Mas por algum motivo, deve ter ocorrido despejo de detritos domésticos, com muita matéria orgânica, que é a fonte de energia das algas.

Problema

já vinha ocorrendo em escala menor

A mortandade de peixes, embora não com a mesmo magnitude desta sexta-feira, nunca deixou de ocorrer na Lagoa. É o que afirma a presidenta da Associação dos Moradores da Fonte da Saudade e Adjacências, (Amofonte), Ana Simas.

Vários moradores me ligam regularmente para dizer que existem peixes mortos no espelho d'água, mas nunca em quantidades como hoje. A Comlurb atua muito rápido nessas ocasiões. Na sexta-feira, uma amiga me disse que o cheiro estava insuportável para quem mora mais próximo do local conta.

Para o pescador Orlando Marins, de 50 anos, que sempre trabalhou na região, o acidente ambiental ainda não prejudicou os negócios.

A espécie savelha, que é a mais atingida, não tem valor comercial, e não pode ser comida. Estamos aguardando ainda para ver se atingiu espécies mais valiosas, como a tilápia, o robalo ou a tainha explica o descendente de uma família de pescadores.

A Comlurb informou que foram encontrados peixes das espécies savelha, corvina, tilápia, barana (tipo de robalo) e bagre. A limpeza poderá levar o fim de semana inteiro.

A equipe de emergência continuará o trabalho a noite e durante o final de semana, até que o serviço seja concluído informa o Secretário Municipal de Conservação e Serviços Públicos, Carlos Osório.

As mortandades de peixes eram comuns na década de 90. Segundo o Inea, a última grande mortandade foi em 2002, quando foram retiradas 92 toneladas de peixes de diversas espécies.

Um ano antes, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) inaugurou uma galeria de cintura, tubulação construída para impedir que os resíduos invadissem as passagens de águas pluviais, desviando-os para o emissário de Ipanema. Em 2007, a reforma de seis das oito elevatórias da Zona Sul mostrou resultados imediatos, junto com o monitoramento das ligações clandestinas.