Com o calor, sombras valorizadas

Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Certamente, não existe nada mais típico para os cariocas do que o sol forte e as praias lotadas durante os fins de semana do verão. No entanto, o luxo de poder se refrescar com um banho de mar entre segunda e sexta é para um grupo seleto. A maioria da população precisa encarar o calor e o batente usando calças jeans, sapato, terno e, no caso de policiais, até fardas. Por isso, uma sombra na cidade virou artigo de luxo, como a reportagem do JB constatou nos últimos dias.

Você sabe se vai ser assim o verão todo? pergunta, suando em bicas, o guardador de carros José Nunes, 44, na Praia do Flamengo.

Depois de pedir para ser entrevistado debaixo de uma árvore, José abre um sorriso quando um amigo lhe traz uma garrafa cheia de água, aparentemente bem gelada.

Se já é difícil para crianças, jovens e adultos andar por aí com esse clima saariano, imagine para os idosos.

Visivelmente incomodada com o forte calor, a doméstica Creuza Cruz, 68, era uma das que mais sofriam nesta quita-feira em plena Avenida Presidente Vargas. Com apenas algumas folhas de jornal sobre a cabeça, ela seguia em direção ao Hospital Municipal Souza Aguiar para uma consulta de rotina.

O caminho ainda é longo, meu filho. Moro no Santo Cristo e decidi sair mais cedo de casa para passar na prefeitura e resolver um problema, mas fica complicado conseguir se deslocar com esse tempo quente reconhece.

Ao longo da principal via do Centro do Rio, é possível localizar muitas outras tentativas de driblar o astro-rei, nem que seja por poucos segundos. Para isso, quem espera o sinal fechar para atravessar a avenida opta por ficar debaixo das marquises. E, acredite se quiser, não é fácil encontrar um espaço no meio de tanta gente.

E, meu irmão, essa cidade só é boa para quem está na praia desabafa o contínuo Luiz Carlos Cruz, que não via a hora de entrar na agência bancária para fazer pagamentos e aproveitar o ar condicionado.

Esperar o ônibus também é um suplício, que muita gente encara espremida no fim de sombra de um poste.

Na orla da Zona Sul, quem não pode curtir os momentos de lazer no mar ou nos chuveiros das areias e dos postos do Salvamar, opta pelo uso de sombrinhas ou pela proteção dos coqueiros.

Curto uma calmaria por aqui na minha hora de almoço afirma o quiosqueiro Nelson de Oliveira, prestes a tirar uma soneca dentro de um compartimento de bicicletas de entregas.

No Brasil, o setor de sorvetes e picolés movimenta aproximadamente R$ 2 bilhões por ano, com uma produção de 490 milhões de litros. Setenta por cento do consumo acontece somente no verão.

É um alívio, mas depois dá mais sede, porque é doce reconhece a universitária Liliana Albuquerque, que deixou uma sorveteria de Ipanema com um copinho com sorvete de sabor manga e um copinho de água.

Evaporação lenta provoca sensação de mais calor

Segundo o meteorologista Isimar de Azevedo, a sensação térmica de até 45 graus que assola os cariocas é resultado da conjugação de três elementos: temperatura, vento e umidade. Quanto mais alta é a umidade relativa do ar, maior é a dificuldade de evaporação da transpiração humana, o que causa uma sensação térmica elevada em dias muito quentes como os atuais.

Em cidades da Região Serrana, por exemplo, a sensação térmica é mais baixa, o que torna o clima mais ameno lembra Isimar.

Ele explica por que os termômetros das ruas acabam registrando temperaturas bem mais elevadas do que as que são divulgadas oficialmente pelos institutos de meteorologia. Na Avenida Presidente Vargas, por exemplo, é normal os números chegarem aos 44ºC, como ocorreu nesta quinta-feira com o equipamento instalado em frente à Central do Brasil:

Todos os institutos meteorológicos mundiais estabeleceram um padrão de medição do tempo. Essa medição é feita a dois metros do solo e numa área com vegetação. Além disso, o termômetro fica posicionado numa casinhola protegida do sol e com ventilação. Este foi o modelo estabelecido mundialmente.

Essas normas técnicas não são seguidas pelos equipamentos instalados nas ruas da cidade. O sensor dos termômetros de vias públicas fica localizado numa caixa de metal ou acrílico, e não existe ventilação, o que justifica os números elevados.

Para os que acham que nos dias de mormaço o calor é pior do que com sol e céu azul, uma notícia: você está enganado.

Não existe nenhum estudo científico que comprove isso. O que ocorre é que no mormaço estamos sob uma sombra de nuvens, e, como a umidade relativa do ar está relacionada com elas, a sensação é de mais calor.

Isimar revela que uma frente fria está chegando ao Rio nesta sexta-feira e que as temperaturas devem sofrer uma redução nos próximos dois dias.

Devemos ter uma queda entre 6 e 8 graus no Rio afirmou, para alívio geral.