Museu da Imagem e do Som acaba com a vista

Caio de Menezes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A construção do Museu da Imagem e do Som (MIS), iniciada na última terça-feira na área onde funcionava a Boate Help, em Copacabana (Zona Sul), representa prejuízo ao bolso dos moradores de alguns dos prédios situados na Rua Aires Saldanha, que fica nos fundos do terreno.

Moradora do quinto andar do prédio 98 da Rua Aires Saldanha, Maria José Cavalcanti, de 80 anos, lamenta o iminente fim da sua vista para o mar.

Por que não fazem uma praça como a do Lido? questiona. Esse museu vai acabar com o sol que bate no meu apartamento, e a brisa que vem do mar não soprará mais aqui. Até retirei o ar-condicionado por causa desse ventinho. Acho uma pena.

Francisco Silvestre de Souza, diretor do Sindicato dos Corretores de Imóveis do Município do Rio de Janeiro (Sindimóveis Rio) calcula o prejuízo de alguns moradores.

O metro quadrado, com vista para o mar, custa em torno de R$ 7 mil. Sem a vista, a redução pode chegar a 40%. Ou seja, um apartamento de 100 m², que antes da construção do MIS custa perto de R$ 700 mil, depois do museu pronto, deve cair para R$ 420 mil avalia.

Perdas e danos

O veterinário e advogado aposentado Plínio Vieira Pinheiro, 92, morador de Brasília, mas dono do apartamento 701 do número 104, da Rua Aires Saldanha, pensa até em entrar na Justiça.

A vista, o arejamento e a insolação são direitos meus, adquiridos. Quando paguei pelo apartamento, comprei esse direito. Vou deixar o rio correr, mas quando a obra for finalizada buscarei meus direitos. Toda essa área será depreciada, o dano será tanto moral como material. Passo muito tempo em Brasília e, quando venho pra cá, o faço para apreciar o oceano e os morros de Niterói. Além do Forte de Copacabana, que é uma das mais belas paisagens que conheço. Sem esse visual, minha vinda para cá perderia a graça reclama.

O presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio de Janeiro (Creci RJ) Casimiro Vale da Silva disse que a obra impactará na procura por alguns dos apartamentos da rua:

A vista para o mar é um diferencial muito apreciado pela classe média alta. Sem ela, o interesse diminui.

Há 20 anos morando no local, Maria José afirma que a vista para o mar pesou na escolha do imóvel.

Morava na Avenida Atlântica, quis sair por conta do barulho, mas sem querer perder a vista. Agora me aparece essa obra. Se eu soubesse, já teria me mudado daqui argumenta.

A construção do MIS está orçada em R$ 70 milhões. Dessa quantia, o governo estadual destinou R$ 18 milhões para a desapropriação do terreno onde funcionava a Boate Help, que foi desocupada no último dia 9. A inauguração do museu está prevista para o segundo semestre de 2012.

Fim da degradação das ruas é comemorado por muitos

Apesar das reclamações dos sem-vista, o fechamento da boate Help é comemorado por muitos moradores do entorno.

Aquilo era um antro de prostituição e drogadição. Finalmente, o governo tomou uma atitude e acabou com aquela pouca vergonha diz a aposentada Noeli Costa Alves de 73 anos, moradora da Rua Aires Saldanha.

Segundo o porteiro de um dos prédios da mesma rua que preferiu não se identificar, o fato de a Help ter sido desapropriada já modificou o clima na área.

O garotos que ficavam aqui na rua de noite vendendo droga, guardando carro e, até, assaltando os pedestres, desapareceram. Acho que é a presença do Estado analisa.

Para um representante de vendas que se identificou apenas como Alcino, de 52 anos, a chegada do Museu da Imagem e do Som (MIS) trará apenas benefícios para a região.

Morei aqui por toda a minha vida, acompanhei a abertura da Help, mas de um tempo para cá estava insuportável. O pior era aqui na rua, nos fundos da boate. Eram brigas, gente usando drogas e fazendo sexo. Eu mesmo já tive dois carros roubados, pois meu prédio não tem garagem. A área será valorizada garantiu o morador da Aires Saldanha.

De acordo com Bruno Iorio, da Kasanova Imóveis, o museu serve como referência, diferentemente da boate.

Associar um imóvel à Help, pegava muito mal, e ele perdia valor. Agora que podemos dizer que o apartamento fica nos arredores de onde será instalado o museu, os imóveis foram deveras valorizados. Para a gente, a Aires Saldanha virou a Rua do MIS comemora.