A árdua tarefa dos barraqueiros das praias da Zona Sul

Thiago Feres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Nesta quinta-feira, o choque de ordem nas praias no trecho entre o Arpoador e Leblon (Zona Sul) completa um mês. Para os barraqueiros que vendem bebidas na areia, porém, parece uma eternidade, pois todos os dias eles enfrentam uma maratona de paciência para montar a nova barraca padronizada.

Segundo eles, é impossível concluir o trabalho em menos de uma hora e meia, uma vez que o equipamento possui até porcas e parafusos, peças que se perdem facilmente na areia.

É impossível montar esta barraca sozinho. Sou jovem e, mesmo assim, não consigo reclama Alexandre Souza, 36, que trabalha na altura da Rua Garcia D'Ávila, em Ipanema. Vejo barraqueiros idosos passando por dificuldades ainda maiores. Levo aproximadamente uma hora e meia com a ajuda de um auxiliar. Além disso, estou perdendo dinheiro. Cada porca ou parafuso que perco na areia custa R$ 2.

Os barraqueiros contam ainda que não existe qualquer manual para auxiliar na montagem. Para complicar ainda mais a vida dos vendedores, os fiscais do choque de ordem passam à toda hora cobrando ou, como a reportagem flagrou nesta quarta-feira, por volta das 9h no Leblon, pedindo um agrado em forma de água mineral.

Maria de Lourdes de Souza está há mais de 30 anos trabalhando na praia. Ela operou o joelho recentemente e não poupa críticas.

Estou revoltada de trabalhar na areia. Não consigo montar o equipamento, que é muito pesado e preciso do auxílio de duas ou três pessoas. Para erguer a nova barraca, é necessário apoiar as duas laterais e o centro ao mesmo tempo. Fui a primeira barraqueira a ganhar a lona do modelo antigo aqui na praia. Uma cliente minha trouxe da Itália e, em cinco minutos, qualquer pessoa montava. Por que a barraca usada pelo choque de ordem é de um modelo muito mais fácil de ser erguida? indaga.

Jairo Medeiros, diretor da Associação do Comércio Legalizado de Praia (Ascolpra), uma das oito que se associaram para exploração do comércio entre o Arpoador e o Leblon, critica os barraqueiros:

Eles gostam de coisas fáceis. Não é difícil montar a barraca e ela vem com manual. Em dois ou três dias, a pessoa se adapta afirma.

Em outra barraca do Posto 10, Agnaldo dos Santos, 43, conhecido como Churrasco, também conta que leva duas horas diárias para armar a sua barraca. Segundo ele, o material que lhe foi tirado pela prefeitura era muito mais resistente do que o atual.

Considero tudo isso um absurdo. Me tiraram as cadeiras e os guarda-sóis de uma fabricante de cerveja para colocarem o padronizado no lugar. O novo alumínio é muito fraco, com isso, estou com duas ou três cadeiras quebradas e ainda não tive reposição. Somado a tudo isso, ainda levo horas montando essa barraca.

A insatisfação não é uma particularidade de quem trabalha. Banhistas reclamam das cadeiras adotadas.

A gente senta e afunda. A antiga era mais resistente diz a publicitária Vera Esquetini.

Perto dali, Márcio Neves, 46, trabalhando há mais de 25 anos na praia, ainda montava a sua barraca, por volta das 14h30.

Não entendo como as pessoas que trabalham nas areais não foram consultadas na hora da elaboração do modelo da barraca. Convido o prefeito a nos ajudar a montar uma barraca um dia diz ele, que assim como os outros não pagou pelos novos equipamentos.

Seop diz que o novo modelo

foi escolhido pelas associações

Responsável pela fiscalização nas areias do Rio, a Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) se limitou a dizer que apenas aprovou o modelo de barraca apresentado por cinco das oito associações de barraqueiros que se associaram à empresa Orla 2010, para a exploração do comércio nas areias. Segundo a Seop, essas associações representam 99% da categoria ou 920 pessoas.

A pasta também informou que não houve necessidade de licitação para a escolha da empresa fabricante da barraca, já que o equipamento não é feito nem custeado pelo município.

A confecção da barraca é um encargo das associações e seus barraqueiros. A prefeitura aprovou e adotou o modelo de barraca apresentado por eles próprios , diz a nota de esclarecimento da Seop.

De acordo com o órgão municipal, desde o último dia 4, toda a faixa de areia que vai do Leblon até o Arpoador já deveria estar totalmente padronizada. Mas a Seop não informou se todos os barraqueiros cadastrados estão usando o novo modelo. Nesta quarta pela manhã, várias barracas fora do padrão estavam montadas.

Jairo de Medeiros, diretor da Associação do Comércio Legalizado de Praia (Ascolpra), reconhece que ainda há pontos a acertar. Segundo ele, cerca de 20 dos 196 barraqueiros que trabalham entre o Arpoador e o Leblon ainda não receberam as novas barracas, guarda-sóis e cadeiras. Ele disse não saber quando isso ocorrerá e sequer informou que empresa fabrica as barracas adotadas como padrão.

O diretor da Ascolpra não soube responder outras questões como valores de cada uma das barracas e pediu para que o presidente da associação, Paulo Soares, fosse procurado. Mas Soares estava com o celular desligado.

Os barraqueiros dizem que foram obrigados a assinar o convênio com a associação para poderem trabalhar na areia e, ao fazê-lo, receberam o material de graça.