Após implantação da UPP, Santa Marta celebra o Natal sem traficantes

Thiago Feres , Jornal do Brasil

RIO - Um ano após a implantação da UPP na favela Santa Marta, polícia e comunidade celebram o Natal em sintonia e longe do domínio de armas

Marcadas durante anos pela difícil convivência com traficantes armados de fuzis, pistolas e granadas, as crianças da favela Santa Marta, em Botafogo, aproveitam este ano a oportunidade de desfrutar de um Natal ainda mais diferente do que o de 2008, quando a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) estava há seis dias no lugar. As transformações na comunidade permitiram que pela primeira vez um Papai Noel visitasse os moradores.

O encontro aconteceu na última quarta-feira, com a distribuição de presentes para as crianças. Os agrados foram uma contribuição dos comerciantes que integram o Polo Gastronômico de Botafogo. A visita do bom velhinho não encerrou as novidades do Natal. Pelas ruas da favela, moradores também comemoravam a oportunidade de receber, sem medo, parentes que moram em outras regiões.

A capitã Pricilla Azevedo, comandante da UPP, reconhece que não esperava uma integração tão rápida entre polícia e moradores. Ela lembra do clima de desconfiança existente entre as vielas nos primeiros momentos após a pacificação.

O receio deles não permitiu um Natal tão bom no ano passado. Eu esperava que um dia pudesse ver uma festa tão bonita como a que tivemos agora, mas não imaginava que tudo pudesse ocorrer no período de um ano. Estamos caminhando com os moradores, a prova disso são os eventos que fazemos. Eles participam de uma maneira maravilhosa. Não tenho palavras diz a capitã.

Segundo a associação de moradores da favela, o Santa Marta possui cerca de duas mil crianças. Todas saltitantes com a chegada do bom velhinho.

Nada no mundo pode ser comparado com a pureza infantil. É lindo demais ver isso tudo afirmou, emocionada, a moradora Adriana Lemos, 29.

A distância dos armamentos pesados, como os que ainda resistem em outras favelas do Rio, é vista com bons olhos por especialistas.

Para o sociólogo Antônio Rangel Bandeira, coordenador de controle das armas do Viva Rio, as crianças do Santa Marta estão sendo tratadas pela primeira vez com dignidade.

Uma pesquisa da Faculdade de Stanford, na Califórnia (Estados Unidos), divulgada há 10 anos, comprovava que os piores criminosos do país tiveram um passado de violência durante a infância. As crianças do Santa Marta estão sendo poupadas de ações de marginais. Se eles conseguem escapar disso agora, teremos cidadãos pacíficos no futuro. A violência impacta muito a criança para o resto da vida com todas as conseqüências negativas destacou o especialista.

A festa na comunidade contou com a distribuição de 500 presentes. Em determinado momento, o Papai Noel quase caiu no chão tamanho foi o alvoroço da garotada.

O encanto pelo bom velhinho não foi uma exclusividade das crianças. Adultos e idosos também se alegravam com a passagem do ícone natalino, que distribuiu os presentes de porta em porta.

Ele saiu lá da UPP (localizada na parte mais alta do Santa Marta) e veio até aqui embaixo, passando pela associação de moradores contou a capitã Pricilla.

A ação fez com que muitos moradores aproveitassem a oportunidade para fazer pedidos para o próximo Natal.

É uma pena que ainda faltem áreas de lazer para os pequenos poderem se divertir mais nesta época de férias lamentou o artista Jorge Crispim, 40, morador do Santa Marta há 39 anos.

Presente iluminado

Depois de uma série de reclamações dos moradores do Santa Marta, a RioLuz deu início ao processo de instalação dos 500 pontos de iluminação pública na comunidade.

A Light fez o trabalho dela, mas nós não tivemos a continuação do serviço. Recentemente, a RioLuz começou os trabalhos destacou o presidente da associação de moradores, José Mário.

Segundo ele, ainda existem promessas a serem cumpridas pelos órgãos públicos.

Nosso maior presente seria a conclusão dos trabalhos de reboco e pintura nas casas da favela.

No Pavãozinho, moradores sonham com serviços públicos

Policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) dos morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, inaugurada na última quarta-feira, já possuem um desafio: fazer com que o Natal de 2010 seja repleto da mesma felicidade e tranquilidade do Santa Marta.

Por enquanto, os pedidos são muitos ao Papai Noel.

Gostaria que houvesse mais estabilidade nos serviços básicos, como água e luz. Somente na semana passada, nós ficamos sem o fornecimento de água em três momentos distintos contou a moradora Shirley Alves, 20, uma das residentes de um dos novos prédios do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O transporte também é outra preocupação de quem vive nas comunidades da Zona Sul.

Sou idosa e, não sei por qual motivo, as kombis deixaram de circular aqui na parte mais alta da favela. Com isso, sou obrigada a pagar R$ 2 para o mototáxi toda vez que eu quero sair ou chegar em casa explicou Felismina Albuquerque, 67.

Por enquanto, o clima nas duas comunidades é de apreensão. Contudo, o discurso do comandante da nova UPP, Leonardo Nogueira, deixa muita gente esperançosa para que os benefícios e a confraternização do Santa Marta também sejam vistos por lá.

Esse momento de chegada é o mais complicado. Vamos encontrar situações inesperadas. Porém, a comunidade já está nos recebendo muito bem. Eles nos passam informações importantes. Vislumbro uma relação leve e super positiva entre a polícia e os moradores, como ocorre em outras localidades com a presença da UPP contou o comandante.

O presidente da Associação de Moradores do Cantagalo, Luiz Bezerra, vai além. Ele acredita na recuperação do que chama de antigos traficantes .

Quem nasceu, foi criado aqui e se envolveu com o tráfico de drogas está procurando emprego. Aquilo era uma forma de ganhar dinheiro para eles, mas ninguém lucrava. Isso era coisa de gente que nem morava aqui na favela defendeu.

Além das obras do PAC, tanto Pavão-Pavãozinho quanto Cantagalo serão beneficiados por uma série de projetos sociais, que entrarão com a pacificação.

Em 2000, a grande falha do Grupamento de Polícia em Áreas Especiais (Gpae) foi essa. Entrou a polícia, mas não as melhorias para a população. Agora não, é diferente. Queremos viver datas festivas como no Santa Marta lembrou Luiz.

Uma coisa é certa: mesmo com a perspectiva positiva, PM e comunidade precisam andar lado a lado e, juntas, trilharem um longo caminho para vencer problemas que já foram evidenciados pelo comandante da UPP.

Ainda existem traficantes escondidos nas duas favelas. Vamos trabalhar para localizá-los disse Leonardo Nogueira.

Este é o desejo de todos para que o local possa celebrar outras datas, como o Natal, num clima tão harmonioso quanto o da favela Santa Marta.