Cartão de visita com fuzil e pistola

Thiago Feres , Jornal do Brasil

RIO - A ação de criminosos nas vias de acesso ao Rio de Janeiro está impedindo que alguns turistas sequer possam ter o tempo de chegar até aos seus destinos finais, como hotéis ou casas de parentes. O leitor Flávio Bastos, médico e morador de Brasília, conta que sua primeira vinda ao Rio foi marcada por uma experiência nada agradável no último sábado, ainda na Avenida Brasil.

Ao lado de sua mãe, de 61 anos, ele trazia, numa caminhonete, alguns pequenos móveis, eletrodomésticos e objetos de valor para as duas irmãs, que se mudaram para a cidade recentemente. Pretendia passar as comemorações de fim de ano ao lado dos familiares.

Flávio seguia para Ipanema (Zona Sul), mas na altura de Jardim América, pouco depois de sair da Via Dutra, foi fechado por um Astra de cor preta com quatro homens armados. Segundo ele, a ação ocorreu por volta das 14h.

Com roupas camufladas e armados, os ocupantes do carro pararam o trânsito da via, roubaram ocupantes de cinco carros e fugiram, levando a minha caminhonete relata Flávio Bastos.

Além dos objetos, também foram roubadas as carteiras com cartões e documentos dele e da mãe, além dos aparelhos celulares dos dois. De acordo com o médico, a ousadia dos bandidos foi ainda maior.

Não bastasse o assalto, eles ainda atenderam aos telefonemas das minhas irmãs, que ligaram para os nossos telefones e ironizaram, além de pedir que elas não fizessem novos contatos. Disseram que eu havia perdido para eles lembra.

O relato de revolta do turista Flávio Bastos evidencia outros problemas estruturais no Rio de Janeiro, como, por exemplo, a existência de algumas delegacias policiais que sequer possuem computadores.

Registrei o caso na Delegacia da Pavuna. Lá, eles usam máquina de escrever. A cópia da ocorrência demora três dias para ficar pronta, o que significa voltar a um lugar que hoje me causa pânico destaca.

Segundo Flávio, o agente que o atendeu na DP teria dito que se tratava de uma ação de policiais banidos que costumam assaltar naquela região.

Me senti humilhado, acuado e indignado com a audácia dos bandidos. Eles fecharam a Avenida Brasil, no auge do movimento e em plena luz do dia, munidos de armas dignas de guerra civil e a poucos quilômetros de um posto da Polícia. Não consegui compreender a ausência total de policiais ou câmeras na região. É o mais puro sentimento de impunidade e revolta disse.

Outro lado

A Polícia Civil negou a existência de qualquer investigação que aponte a presença de policiais banidos atuando em pontos específicos da Avenida Brasil.

Já a Secretaria Estadual de Obras, responsável pelo projeto de modernização dos distritos policiais, confirmou que na delegacia da Pavuna o trabalho ainda é feito de forma manual e com máquinas de escrever, mas que já existe recurso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para implantar o projeto Delegacia Legal em todos os 38 distritos restantes até o final de 2010.

A Polícia Militar, responsável pelo policiamento ostensivo na Avenida Brasil, por intermédio do Batalhão de Policiamento Rodoviário (BPRV), lamentou o ocorrido e destacou que está reforçando as operações naquele trecho.

Sentimos o desconforto vivido pelo cidadão e somos solidários destacou o comandante do BPRV, Aristeu Leonardo. Desde que assumi o comando da unidade, em julho, colocamos mais 16 policiais e quatro viaturas circulando na Avenida Brasil, onde não existe déficit de efetivo. Hoje, contamos com 70 policiais e 26 carros. Com as novas ações, estamos reduzindo os índices criminais, principalmente de roubo de veículos.