Zona Sul à luz de velas por quase um dia inteiro

Manuela Andreoni, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Depois de quase um dia inteiro sem luz, moradores e comerciantes de parte do Leblon, Ipanema e Lagoa juntam seus papéis para mandar a conta para a Light. Com a energia cortada desde o fim da tarde de segunda-feira até o início da noite desta terça-feira, os prejuízos ainda estão sendo contabilizados. Tijuca, São Cristóvão, Benfica, Méier, Ramos e Penha (Zona Norte), Jacarepaguá (Zona Oeste) e Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também enfrentaram falta de energia, que voltou apenas no meio da tarde desta terça-feira.

A empresa informou, em nota, que o apagão da Zona Sul ocorreu em virtude de defeito em três cabos subterrâneos segunda-feira, às 15h50 e que 125 equipes trabalhavam para resolver o problema. Os moradores dos locais atingidos relataram que as luzes ficaram piscando e que o fornecimento voltou algumas vezes para depois cessar até as 14h40 desta terça-feira em um total de 22h50 sem luz em alguns trechos. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou que a Light tem 48 horas para esclarecer as causas do apagão que atingiu 12,3 mil de seus clientes.

Dias melhores

De acordo com o vice-presidente de operações da Light Roberto Alcoforado, o problema na Zona Sul não deve se repetir:

Três dos oito cabos da estação subterrânea deram defeito por uma carga maior do que o normal por causa do calor. Também houve furto de cabos.Temos uma média de temperatura para todos os meses do ano e neste mês de novembro, não foi normal. Só o novembro de 2004 foi mais quente.

Questionado sobre se a empresa não poderia ter previsto que este seria um mês atípico, Alcoforado responde que essa não é uma preocupação geral da Light. O mês de novembro deste ano registrou um acréscimo de até 4 graus em relação às temperaturas do ano passado.

Os problemas nas outras áreas da cidade, segundo o vice-presidente, não tiveram relação:

Defeitos e interrupções acontecem diariamente em 70 ou 80 transformadores, por causa de batida de carro em poste, chuvas. Neste caso foram 200 ocorrências, também por causa do calor.

Técnico critica

Para o pesquisador de planejamento energético da Coppe Marcos Freitas faltam investimentos, já que a empresa lucrou no terceiro trimestre deste ano R$ 67,4 milhões:

Com balanços tão impressionantes, não é admissível que se falte luz por mais de quatro horas. Temperaturas elevadas são normais nesta época. E, se o roubo de cabos é recorrente, tem que haver um sistema de proteção.

Comerciantes se organizam para tentar ressarcimento

Quem abriu a página da Light na internet nesta terça-feira, deparou-se com um pedido de desculpas aos moradores dos bairros afetados pela queda de energia. O comerciante José Silvestre, no entanto, não se deu por satisfeito. Dono do açougue Ki karnes, em Ipanema, ele contabilizou prejuízo de, no mínimo , R$ 20 mil.

Já estamos consultando um advogado. Vamos nos reunir amanhã com o pessoal das outras lojas para ver se lidamos com o problema em conjunto afirmou Silvestre, que está no ponto há 18 anos e nunca tinha visto nada do tipo.

No Leblon, o caso foi diferente. De acordo com a presidente de associações de comerciantes e de moradores do bairro, Evely Rosenzweig, só o Cinema Leblon teve prejuízo de R$ 20 mil.

Hoje é o dia em que os próprios empresários estão contabilizando prejuízo. Mesmo as lojas com gerador tiveram, por baixo, 50% de perdas pela falta de clientes. Se for o caso, vamos entrar com uma ação civil pública. Se o sistema não está preparado para receber chuva, que sistema é esse? Até agora não tivemos nenhuma explicação razoável reclamou Evely.

Os cerca de 82 sinais de trânsito da Zona Sul sofreram apagões, e a CET-Rio informou ter mobilizado várias equipes para normalizar a situação. De acordo com a diretoria de operações, foram deslocados operadores do Túnel Rebouças e da Avenida Brasil para reforçar o trabalho nos cruzamentos mais complicados. A Guarda Municipal também deslocou contingente extra para lidar com a situação. Para complicar ainda mais o trânsito, caminhões com geradores contratados por estabelecimentos na região estacionaram nas ruas estreitas dos bairros.

O Ministério Público do Estado do Rio ainda não recebeu reclamações dos moradores afetados pelos apagões. A Comissão de Defesa do Consumidor da Alerj, por sua vez, recebeu mais de cem ligações desde o apagão do dia 10 deste mês e informou já ter entrado com ação contra a Ampla e a Light após o apagão da semana passada, que afetou o país inteiro.