Estudo mostra que 50% dos baleados no Rio não resistem aos ferimentos

Manuela Andreoni e Thiago Jansen, Jornal do Brasil

RIO - Segundo levantamento feito pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, nos últimos cinco anos, metade das vítimas que são atendidas nas ruas pelo Corpo de Bombeiros morre no local, diferentemente do que acontecia na década passada, quando os atendimentos de emergência conseguiam salvar mais vidas. A razão deste dado estaria no aumento dos calibres da armas utilizadas tanto por policiais como por bandidos.

Apesar de o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro não possuir estatísticas específicas quanto às armas que mais atingem as vítimas, Jorge Darze, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, confirma que os armamentos cada vez mais pesados usados nos confrontos na cidade são o motivo para o dado alarmante.

No caso do helicóptero, por exemplo, aquilo era uma metralhadora de guerra. Antigamente, as pessoas eram vítimas de revolver 32, 22, daquelas garruchas afirma Darze.

A informação de Darze encontra respaldo no testemunho de profissionais da corporação que trabalham diretamente nas ambulâncias de atendimento.

A maioria das vítimas que atendemos atingidas por revólveres chega com vida aos hospitais. Quando socorremos alguém atingido por uma arma de calibre maior, como fuzis, o óbito é quase certo afirma um socorrista do Corpo de Bombeiros que não quis se identificar. Na maioria dos casos, o calibre de uma arma, o local onde a pessoa é atingida e a quantidade de tiros que ela recebe são cruciais para as suas chances de sobrevivência.

Procura diminui

Cirurgião de tórax do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, há 32 anos, Antonio Carlos das Neves conta que a procura por sua especialidade é cada vez menor.

Isso acontece porque, se pegar um tiro com esses armamentos e atravessar, não tem mais como. Poucos casos que pegamos são feridas penetrantes, a maioria é tiro de raspão. As pessoas morrem antes de chegar ao hospital.

Profissionais de saúde que atuam na emergência de hospitais públicos da cidade também atribuem à política de enfrentamento adotada pelo atual governo como um fator contribuinte para o levantamento apresentado pelo Sindicato dos Médicos do Rio.

Acredito que esse aumento no número de pessoas baleadas por armas de calibres maiores acontece há cerca de dois anos e acompanha o aumento do número de confrontos entre policiais e bandidos - opina um enfermeiro de um hospital da rede pública do Rio, que preferiu não se identificar.

Julio Noronha, chefe de emergência do Hospital Geral de Bonsucesso, concorda com o aumento:

A emergência fica muito cheia já que as pessoas chegam aqui já em uma situação muito complicada, então não temos muitos leitos.

Deficiência dos hospitais

Segundo outros profissionais de saúde entrevistados pelo Jornal do Brasil, há outro agravante no aumento do número de mortos por tiros no Rio. A falta de atendimento básico faz com que as pessoas cheguem aos hospitais com problemas sérios que poderiam ter sido resolvidos melhor se tratados antes. Darze diz que o próximo levantamento a ser feito pelo sindicato será o de mortes já dentro do hospital.

As pessoas baleadas enfrentam uma segunda violência quando chegam ao hospital público e encontram um lugar completamente degredado.