Clamores por paz e liberdade

Thaila Frade, Jornal do Brasil

RIO - Apitos, cartões vermelhos e frases de ordem tomaram a orla da Praia de Ipanema, na manhã deste domingo, quando cerca de três mil pessoas, de acordo com a organização, participaram de uma passeata pela paz, diversidade e liberdade contra a visita do presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, que chega hoje ao Brasil. Foram mais de 30 grupos da sociedade civil, como o Instituto de Fomento à Cidadania, o Grupo Arco-Íris, o Museu Judaico e a União Cigana do Brasil, entre outros que se reuniram em torno do slogan: Negar o holocausto é como negar a escravidão no Brasil .

A visita do Ahmadinejad não é uma ameaça para judeus, negros ou homossexuais apenas. É uma ameaça para a democracia. Nos reunimos para defender um mundo livre atentou Michel Gherman, representante da comunidade judaica Hillel.

Ainda na concentração, com o microfone aberto a todos que desejassem falar, o depoimento do aposentado Aleksander Laks, de 82 anos, sobrevivente do holocausto, chamou a atenção:

O presidente do Irã deve ter família. Eu não. Perdi toda a minha família, quase 60 pessoas, no holocausto. Como ele pode dizer que o holocausto não existiu? questionava Aleksander sobre as insistentes declarações do presidente iraniano em negar o holocausto.

Entre os manifestantes, muitas crianças e jovens, como o estudante Guilherme Engekender, de 22 anos, que lidera o movimento juvenil Habonim Dror.

Estamos aqui repudiando a decisão do presidente Lula. Por mais que vivamos em um país livre, precisamos de esclarecimentos para receber alguém que discrimina as minorias opinava.

Apreensão com o visitante

Entre os cantos africanos entoados pelos representantes do grupo Filhos de Gandhi e pedidos de Senhor presidente: explique ao convidado , manifestantes questionavam a atitude do presidente Lula em manter a visita do iraniano ao país.

Ele quer contestar o poder mundial, principalmente desrespeitando as diferenças. Ele sempre tenta fazer associações entre o Brasil e o Irã sobre o uso de energia nuclear e vem defender isso, mas esquece outros aspectos salientava o empresário aposentado Salim Belaciano.

O protesto terminou com os manifestantes cantando o Hino Nacional, fazendo um minuto de silêncio e soltando balões brancos que representavam cada direito violado por Ahmadinejad.

Cada balão representa uma vítima da intolerância do governo do Irã. Temos esperança de que o presidente Lula não receba dinheiro ou investimentos de um governo que não respeita os homossexuais, crianças, mulheres e outros religiosos bradava Michel.

Minorias se fizeram presentes em Ipanema

Paz, shalom, salam maleico, saravá, axé, etc. Todas as palavras eram pronunciadas para que todos os participantes refletissem sobre o mesmo interesse que os uniu. No trajeto realizado entre as ruas Maria Quitéria e Farme de Amoedo, uma prova de que a liberdade religiosa daria o tom da passeata: representantes do grupo de afoxé Filhos de Gandhi cantavam no dialeto africano yorubá e puxavam o muçulmano Salah Al-Din Ahmad Mohammad, da Sociedade Beneficente de Desenvolvimento Islâmico.

Estamos todos juntos, independentemente de nossas convicções religiosas. Todos aqueles que querem impedir a liberdade de expressão, somos contra alertava Pai Jorge Correa, presidente da Associação de Proteção dos Umbandistas e Candomblecistas.

Quando fomos convidados, pensamos no futuro. Achei muito interessante terem lembrado da luta do holocausto assim como a da escravidão. Nosso compromisso é lutar contra quem quer impedir o livre exercício de seus direitos declarou Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

Não podemos permitir que um novo holocausto seja cometido. Quando este político prega o fim do estado de Israel, ele está pregando um novo holocausto com as mortes que isso pode provocar defendia o rabino argentino de 26 anos, Dario Bialer.

Entre os manifestantes houve espaço também para políticos do PMDB protestarem, como o deputado federal Marcelo Itagiba.

Sou brasileiro, judeu e sionista. Combato as intolerâncias e a presença de Ahmadinejad deve ser repudiada por todos nós.

Maus-tratos foram lembrados

Ainda na concentração, Judson C. Maciel, de 26 anos, representante do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT e membro da Anistia Internacional afirmou a intolerância do presidente iraniano com os homossexuais.

Mais de sete mil homossexuais morreram durante o governo dele. O nosso cartão vermelho vai para o preconceito, queremos um mundo plural.

Apesar de participarem da Convenção Internacional da ONU dos Direitos da Criança, o Irã nunca divulgou um laudo que provasse que elas possuem condições básicas de vida. Não são só crianças e adolescentes que sofrem. O Ahmadinejad não respeita nenhum dos direitos humanos discursou Carlos Nicodemos, representante da OAB/RJ e presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedca).