Rio: sem-teto que moram debaixo de viaduto são vizinhos da Prefeitura

Urbano Erbiste, Jornal do Brasil

RIO - "Viaduto, substantivo masculino. Ponte construída sobre um vale, uma estrada, etc., para estabelecer a comunicação entre as duas vertentes". Porém, no dicionário de José Antônio Barbosa, de 48 anos, a definição de viaduto é outra, bem mais simples: casa. Carioca, filho de Severina Silva, ele mora nas ruas do Rio há 21 anos os seis últimos quase em frente à sede administrativa da prefeitura do Rio. Isso mesmo: José é vizinho do prefeito Eduardo Paes e até agora passou incólume aos choques de ordem que caracterizam a atual gestão do município. O interior do viaduto que liga a Av. Presidente Vargas à Praça da Bandeira já foi um depósito da Comlurb, mas agora é a moradia de José Antônio e mais três amigos, que se intitulam guardiões do local.

Se eu não morasse aqui, isso já seria uma cracolândia, uma boca-de-fumo. Olha o tamanho disso aqui, imagina...

O que sobrou da infraestrutura usada pela Comlurb permite aos ocupantes a sobrevivência no local. Lá, eles têm água encanada, banheiro, energia elétrica e privacidade todas as janelas têm grades e há uma porta. São sete cômodos: quatro quartos, um espaço maior que funciona como sala, cozinha e um pequeno depósito alugado para guardar mercadorias de camelôs.

A receita proveniente dos ambulantes (R$ 30 por dia) é a única fonte de renda que José diz possuir.

É mais do que eu ganhava como ajudante de caminhão antes de ir para rua conta ele, que tem cinco irmãos, alguns deles ainda circulam pelo bairro do Estácio.

Sou o único que caí na rua. Todos os meus irmãos todos moram no Morro da Mineira.

Perguntado sobre a possibilidade de sair do viaduto, José Antônio diz que não pretende deixar a casa, observado pelo olhar atento de uma mulher assustada que mora com ele e diz que sonha em ir pra Minas Gerais, em busca de ouro.

Não muito longe, mais precisamente em frente ao viaduto de José, moram seu vizinho Anilton dos Santos, 30 anos, e a companheira que conheceu na rua. Diz que foi expulso por um traficante do Morro do São Carlos por não aceitar um convite para entrar na quadrilha.

Fui jurado de morte. Ele até morreu, mas tenho medo dos comparsas. Minha vida virou uma bagunça. Trabalhava de carteira assinada como faxineiro do Aeroporto Santos Dumont, aí a empresa me transferiu de setor e depois me mandou embora.

Enquanto Anilton fala, a mulher que vive com ele, e que diz não lembrar o próprio nome, descasca um legume com uma faca. Desconfiada, resmunga sobre a possibilidade de o repórter ser da prefeitura. Antes que ela resolva usar a faca contra o intruso, surge um outro morador, que tranquiliza o casal:

Se ele fosse do abrigo nem entraria aqui conjectura, dando tempo ao jornalista de sair daquele ambiente hostil.

Anilton diz que está vivendo de catar latas e outros materiais recicláveis. Afirma ganhar cerca de R$ 30 por semana, quando vende tudo que encontrou.

Queria mesmo uma oportunidade de mudar minha vida. A rua é muito ruim. Olhe a minha mulher, veja como essa vida deixa a pessoa doida. Ela não sabe nem o nome, eu chamo de Aline, porque acho que ela se parece com esse nome.

Esgotado pelo sofrimento daquela gente, o repórter decide se afastar. Atrás de si, enquanto caminha, ouve Anliton cantarolar, rindo, um velho sucesso do Agepê.

Moro onde não mora ninguém/Onde não passa ninguém/Onde não vive ninguém...

Secretário admite que abrigos são muito ruins

Levantamento da Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas) contou, recentemente, 4.224 pessoas morando nas ruas do Rio. Mais da metade já teria sido encaminhada para abrigos municipais, nas operações de choque de ordem da Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop), em parceria com subprefeituras e administrações regionais. Segundo a Smas, 2.961 adultos e 885 menores passaram, desde 1º de janeiro, pelos centros de triagem da prefeitura, mas a maioria retornou às ruas.

O levantamento mostrou que 86,3% dessa população é do sexo masculino; 75,2% têm entre 25 e 29 anos; e 70,75% não completaram o ensino fundamental. Como motivo alegado para morar na rua, 43,6% citaram conflito familiar; 21,9%, desemprego; e apenas 12,2% o uso de drogas.

Os moradores de rua não têm um perfil definido explica o secretário de Assistência Social Fernando William. Há quem tenha perdido o emprego e também a pessoa que trabalha no burro sem rabo e dorme em cima dele à noite. Tem ainda uma parcela enorme que ganha a vida catando papel e, em vez de voltar para casa, dorme na rua mesmo. Por isso, desenvolvemos um projeto cujas propostas contemplam essas realidades.

Abrigo por 15 dias

O projeto a que o secretário se refere é um plano que prevê a reforma dos abrigos da prefeitura e a descentralização do trabalho de triagem, aumentando o número de pontos onde elas são realizadas e transformando-as em centros de passagem.

Os abrigos são muito ruins. Temos basicamente uma central de triagem para 90 % da população de rua diz William. Em grandes acolhimentos, muita gente nem espera pelo cadastro, vai embora. Queremos acabar com as atuais características da central de triagem e manter essas pessoas no abrigo por até 15 dias. É o tempo necessário para encontrarmos alternativas, seja de retorno à família ou à terra natal. Poderemos oferecer Rio Card a fim de que voltem para casa ou encaminhar para repúblicas.