Familiares de jovens mortos em invasão de favela vão à OAB-RJ

Andrea Bruxellas , Portal Terra

RIO DE JANEIRO - As famílias dos três rapazes mortos durante os conflitos no Morro dos Macacos no dia 17 de outubro foram recebidos pela presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ), Margarida Pressburger. Marcelo da Costa Ferreira Gomes, Leonardo Fernandes Paulino e Francisco Aílton Vieira foram mortos a tiros quando chegavam de carro num dos acessos principais ao morro, após uma festa.

Os familiares dos jovens disseram acreditar na Justiça. Eles foram juntos a sede da OAB, no Rio, onde se reuniram com um grupo de advogados da Comissão de Direitos Humanos.

- Eu vi a preocupação da OAB em nos ajudar. Queremos alertar a toda população para o genocídio que está acontecendo nessa cidade. Precisamos rediscutir a política de segurança do Estado. São mais viúvas, crianças e mães que contavam com a ajuda financeira dos filhos que agora sofrem e se sentem desamparadas. O Leonardo morreu e deixou um filho de 5 anos. O Adailton, o único do grupo que sobreviveu, tem um filho de 1 ano e meio e a mulher esta grávida de três meses - disse José Marconi Marques de Andrade, tio e padrinho de Marcelo, uma das vitimas. - Ele (Adailton) não consegue parar de chorar porque viu o irmão e dois amigos serem fuzilados na rua. Viemos buscar auxilio jurídico da OAB para o processo que vamos abrir contra o Estado. Precisamos reparar financeiramente essas famílias.

Segundo informações do tio de Marcelo, que trabalhava numa oficina mecânica como técnico de ar-condicionado de carros, ele era uma rapaz brincalhão. Recentemente vinha enfrentando alguns momentos de depressão e foi aconselhado a se distrair pelos médicos. Leonardo, Ailton e Adailton também esperavam se divertir na festa à fantasia que acontecia no morro dos Macacos na mesma noite em que se deu a guerra dos traficantes.

- O Adailton nos contou que quando voltavam pra casa, Leonardo percebeu que a rua estava escura. E, como costumamos fazer no morro, ele diminuiu a velocidade do carro, baixou os faróis e ligou a luz interna. Foi o primeiro a ser alvejado - lembrou com tristeza o tio e acrescentou, - Não houve perícia, não houve investigação, não houve nada.

Para a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Margarida Pressburger, pouco importa se os tiros que mataram três das quatro vitimas cujos parentes procuraram auxílio da Ordem dos Advogados partiram da policia ou dos bandidos.

- Entraremos com uma ação de danos contra o Estado que, em qualquer uma das duas possibilidades, deixou de cumprir a obrigação de oferecer segurança para a população. A partir de hoje estaremos acompanhando todo o processo na delegacia. Estaremos incomodando ate que essas famílias possam ser contempladas de alguma forma - disse a advogada.

- Estou sentindo um vazio, uma tristeza. Acho que não vou sobreviver. Já não consigo mais comer e, desde que meu filho se foi, sinto ânsia de vomito o tempo inteiro. Ainda me restou um filho, o Claisson, de 16 anos. Mas não estou nem conseguindo consolar ele. Só abraço e choro. Ele não esta indo nem mais para escola - contou dona Rita Fernandes Paulino, mãe de Leonardo.

Ela tem recebido muito apoio dos amigos, mas esta inconsolável. Dona Maria da Costa Ferreira, mãe de Marcelo, também não se conforma.

- Tenho câncer de mama e nunca me conformei quando meu filho dizia que iria morrer primeiro do que eu. Naquela noite, fiz que ele jurasse por mim mortinha que voltaria antes das 3h. Meu filho era como um enfermeiro pra mim. Ele ainda correu para tentar se salvar. Não queria morrer - disse a mãe do rapaz aos prantos.

Os pais das vitimas vão voltar a participar de outras reuniões na OAB. Eles serão ouvidos juntos e individualmente ate que o processo esteja pronto para ser encaminhado.