Desde 2007 Rio já registrou mais de 20 mil mortes

João Pequeno, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Mais de 20 mil finados foram lembrados nesta segunda-feira pela ONG Rio de Paz em Manguinhos (Zona Norte). Eram os 20.255 mortos por crimes violentos no estado do Rio que a organização contabiliza desde a sua fundação, em janeiro de 2007, com destaque, desta vez, para o estudante Rafael Rocha Ribeiro, 16 anos, baleado durante incursão do Batalhão de Operação Especiais (Bope) da Polícia Militar à favela Mandela 3, na última quarta-feira. Rafael foi baleado na cabeça, perto da nuca, após deixar o irmão de 3 anos na creche.

Ele passou em casa e ia jogar o lixo fora quando os policiais, que estavam do outro lado do canal (do Cunha) atiraram contou a mãe de Rafael, a doméstica Angélica Gomes da Rocha, 32.

Segundo Angélica, os policiais recolheram as cápsulas das balas que usaram, mas um morador conseguiu guardar uma delas. A doméstica promete que só irá entregá-la à perícia.

A delegada Valéria (Castro), da 21ªDP (Bonsucesso) marcou para as testemunhas deporem na quinta-feira, mas eu queria que viessem reconstituir o crime afirmou Angélica, acrescentando que seu filho ainda gritou me ajuda duas vezes para sua sobrinha, também de 16 anos, após ser baleado, mas quando a ambulância chegou, 15 minutos depois, já estava morto.

Índice mortal

O cartaz do ato combinava as cinco argolas do símbolo olímpico com os algarismos do número 20.000, representando as mortes, que, segundo o coordenador do Rio da Paz, Antonio Carlos Costa, podem ser ainda mais, pois a ONG não incluiu encontros de cadáveres e de ossadas nem desaparecidos.

A Itália tem um morto para cada 100 mil habitantes. O Chile tem 1,7; os Estados Unidos, 5,6, e o Brasil, 27. Não se justifica um país rico, que sedia Olimpíada ter tantas mortes enfatizou, ao lembrar que nesta segunda-feira o Rio de Paz, acostumado a protestar em Copacabana, fez sua primeira manifestação dentro de um favela.

Durante o protesto, 20 cruzes que haviam sido fincadas num lamaçal em frente ao Canal do Cunha foram carregadas por crianças pelas vielas. Segundo Costa, eles representavam tanto uma para cada mil mortos quanto para os 20 mortos diariamente, em média, no Rio .

O desejo de paz, pelo jeito, está distante da Mandela. Logo após a passagem do cortejo, o JB viu um bandido armado com um fuzil rindo, em um beco.

No meio do ato da ONG, Rose de Lourdes Nogueira, 42, chegou chorando, contando que fazia um ano e meio que seu filho, José Ailton Dias, 22, fora morto pela polícia.

Meu filho era entregador de bebidas e estava trabalhando. Disseram que ele era bandido. Desde então, nem, consigo trabalhar, porque fico nervosa e com medo de siar de casa desabafou.

Contactada pelo JB, a Secretaria de Segurança não se pronunciou.