Taxista: a saúde vista pelo retrovisor

Flávia Salme, Jornal do Brasil

RIO - Você é daqueles que acha que todo motorista de táxi é abusado, atrapalha o trânsito e colabora para o inchaço de veículos nas ruas do Rio? Ok, pulemos a discussão. Mas, se em algum momento, você tiver de lançar mão dos serviços oferecidos pelos chauffeurs de praça da cidade é melhor tratá-los com mais consideração. Os cerca de 31.500 taxistas que enfrentam a frota de 2.2 milhões de veículos nas ruas da capital estão sob alta pressão. É o que revela estudo apresentado, semana passada, na Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Com uma carga de trabalho que chega a 14 horas por dia, até sete dias por semana, estes profissionais se alimentam mal, dispõem de pouco tempo para cuidar da saúde, desenvolvem obesidade e sofrem de hipertensão. O pesquisador Marcelo Carvalho Vieira foi a campo, conhecer de perto essa realidade, que, pelo tamanho do problema, virou dissertação de mestrado. O resultado?

A prevalência de hipertensão nos taxistas do Rio é preocupante. Para agravar esse quadro, o ritmo de vida que eles levam favorece a doença. Só a carga horária cumprida, aliada ao trabalho ininterrupto, são motivos suficientes para desencadear o problema.

Fatores de risco

Para realizar a pesquisa Hipertensão Arterial e Características Ocupacionais em Motoristas de Táxi do Município do Rio de Janeiro, foram ouvidos 496 taxistas entre novembro de 2008 e abril de 2009. Os entrevistados responderam a questionários sobre presença e controle da hipertensão arterial, fatores de risco para a doença e características ocupacionais. No trabalho, 22,2% (110) reconheceram ter pressão alta (acima de 14/9) já identificada. O grupo também apresentou elevadas frequências de excesso de peso, diabetes mellitus (doença metabólica caracterizada por aumento anormal do açúcar no sangue), sedentarismo e tabagismo.

Minha pressão já chegou a 17/23, hoje, controlo por remédios. Mas admito que não faço a alimentação adequada, comer na rua é muito complicado. O cardápio não varia, é sempre arroz, feijão, bife e batata frita. É raro ter salada conta Wagner Cruz, de 50 anos, 15 deles na praça.

Apesar de autônomo, Cruz trabalha até 14 horas por dia e ainda atende a clientes fiéis nos finais de semana.

Faço meu dinheiro, minha qualidade de vida depende desse esforço explica ele, que, apesar de estar bem acima do peso, não faz exercícios e só vai ao médico 'quando há necessidade'.

Trabalho incessante

A longa jornada nas ruas foi outra informação preocupante do estudo, já que 44% dos entrevistados afirmaram trabalhar sete dias por semana, e 92% disseram dirigir mais de oito horas por dia.

Moro em Realengo e trabalho no Centro. Acordo 5h30 e só volto para casa às 21h. Ainda rodo no fim de semana, porque sou diarista relata Ivan da Cruz Reis, 57. Por não ser autônomo, ele paga R$ 130 pelo aluguel diário do táxi, além de R$ 35 para o combustível. Pela regra do mercado amarelo, diaristas podem lucrar todo o faturamento do fim de semana. Por essa razão, esses profissionais, que correspondem a 42,3% dos entrevistados, não poupam nem mesmo o domingo. Muita pressão.

Além de ruas esburacadas, radares eletrônicos, guardas de trânsito e violência, os taxistas ainda enfrentam uma rotina de trabalho que compromete qualquer preceito da boa saúde.

Eles são frequentemente submetidos a exposições ambientais adversas, como calor, vibrações, ruído intenso, gases tóxicos resultante da queima dos combustíveis, além de longas jornadas de trabalho em turnos diurno e noturno complementa o pesquisador Marcelo Carvalho Vieira, que é formado em Educação Física.

Bom humor para levar o dia a dia mais 'relax'

Os motoristas, se provocados, relatam já terem visto de tudo dentro dos carros amarelos. Brigas de namorados, pessoas passando mal, crises depressivas, dores provocadas por traições... São histórias, se deixá-los, sem fim. Mas é na própria praça que circulam os mais variados taxistas. As diferenças vão de credos a raças, de estilos musicais a filosofias de vida, passando do atendimento à oferta de serviços. Farta seara.

Há oito anos, Cláudio Roberto Prudente cismou que, diante da concorrência, precisava de um diferencial. Foi quando surgiu a ideia de levar o amarelo da lataria para dentro do táxi. O Yellow Cab, como é conhecido seu carro, atrai curiosos nas ruas e já conquistou clientes fiéis como o técnico de futebol Carlos Alberto Parreira, garante Prudente.

Game e celular para clientes

Dentro do veículo de trabalho, Cláudio carrega TV, DVD, video game, cinco aparelhos de celular para uso dos passageiros, dezenas de bichos de pelúcia, balas e, claro, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, para proteger a rotina. Mesmo com um veículo tão... chamativo, ele não escapou de um assalto.

Certa vez, peguei um passageiro muito bem vestido em Botafogo. Ele disse que queria ir para a Tijuca e, no meio do caminho, me rendeu com uma pistola na cabeça. No final, levou só os aparelhos de celular, pois achou que meu carro chamava muita atenção para ele ficar circulando relembra. Mas Cláudio não gosta de histórias tristes. Sempre de bom humor, só atende com hora marcada. O marketing do rapaz o leva a fazer palestras, no Rio e em São Paulo, por até R$ 4 mil. O próximo passo, segundo ele, é tentar uma cadeira de deputado federal. Em busca de tantos planos, não sobra tempo para cuidar da saúde, admite o taxista.

Tem dias que nem consigo almoçar. Exercício também não faço. No fim de semana trabalho, os clientes chamam, né? conclui.

De olho no futuro

Em busca de melhor qualidade de vida , Ednilson Ferreira da Silva, 37, aproveita a hora do almoço para estudar as matérias do curso técnico de radiologia e deixar a praça. A rotina é puxada. Morador de Campo Grande, ele cumpre 12 horas de trabalho até seguir para as aulas. No sábado, faz especialização.

É puxado, mas nem é o mais difícil. Complicado é encarar um monte de homem sarado que tentam me cantar reclama Ednilson, apelidado Marcelinho Carioca pela semelhança com o meia-atacante.

Rotina de engarrafamento, barulho, violência e estresse

Dentro do veículo, o taxista precisa ficar atento a muitas informações. Hoje, a maioria conta com um radiotransmissor e dois aparelhos de localização: o GPS, que ajuda a encontrar ruas da cidade, e o GPRS, uma espécie de celular com conexão de internet que permite à cooperativa monitorar a localização do veículo e emitir alertas. Entre esses avisos, mensagens de ruas fechadas por tiroteios, assaltos a colegas de profissão, pardais instalados pela cidade e, claro, informações sobre os passageiros. Na prática, os taxistas mantêm um olho nessas informações e o outro, no trânsito. Puro estresse.

Tudo enerva, das ruas esburacadas ao guarda que não para de multar. Tem taxista com mais de R$ 4 mil em multas reclama Paulo Motta, taxista há 19 anos.

A violência é outro ponto nevrálgico da corrida. São poucos os motoristas que se recusam a atender clientes em favelas. Mas dispensam a corrida quando os passageiros pedem para ir a áreas com conflitos deflagrados.

Pelo GPRS, sabemos onde há festa junina (tiroteio no jargão dos taxistas). Evitamos áreas onde conflitos estejam em andamento, não dá para ser diferente. Mesmo assim, nas ruas, tudo pode acontecer. É tenso mesmo relata o ex-comerciante Lúcio Francisco Ribeiro, de 42 anos, taxista há três.

Bomba relógio

Na avaliação do cardiologista Ivan Luiz Cordovil de Oliveira, chefe da Divisão de Hipertensão - Instituto Nacional de Cardiologia (INC), a rotina dos motoristas de praça é uma bomba-relógio prestes a explodir e provocar sérios e permanentes estragos.

O dia a dia desses profissionais é repleto de fatores de risco para as doenças cardiovasculares (ataques cardíacos e derrames cerebrais). Falta de exercícios, alimentação inadequada e obesidade os tornam propensos a desenvolver Síndrome Metabólica. Isso aumenta em 2,5 vezes as chances de infarto explica Oliveira, orienta os motoristas a fazerem um intervalo a cada três horas no volante para esticar os músculos e facilitar a circulação sanguínea.