Jovens recorrem a projeto social atrás de formação em áreas do Teatro

Camilla Lopes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Em uma semana de violência em que o Rio que o destino de muitos jovens de comunidades é amargar a guerrilha urbana entre polícia e traficantes, um projeto realizado na Zona Norte, bem próximo às áreas dos últimos conflitos, surge como um novo caminho para adolescentes com idades entre 15 e 18 anos. Sem sofisticação, a ideia do projeto Passageiros do Futuro é levar o teatro e toda a técnica que essa arte envolve até esses jovens.

O teatro é uma arma poderosa de transformação define a atriz Juliana Martins fundadora do projeto, iniciado em 2001.

Os 48 eram 60 mas há evasão, segundo Juliana, porque muitos dos incritos no projeto precisam trabalhar montaram o espetáculo Cronicas da cidade, que retrata situações típicas do cotidiano brasileiro a partir de crônicas de autores como Carlos Drummond de Andrade, Luís Fernando Veríssimo e José Carlos Oliveira.

O projeto é um bálsamo, mas faz exigências. Para integrar o Passageiro do Futuro, o adolescente precisa estar bem na escola. E, por falar neles, alguns estabelecimentos de ensino têm decepcionado Juliana Martins e os demais participantes das oficinas, em grande parte alunos dos colégios estaduais.

Nosso trabalho para encontrar os integrantes do projeto começa nas escolas estaduais. Procuramos os diretores dessas instituições, mas muitos nem querem nos receber conta.

Português melhor

Jean Rodrigues tem 15 anos e é morador da subida do Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Estuda na Escola Estadual República Argentina, no mesmo bairro, uma das dez últimas do Rio de Janeiro na avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 2008.

Eu sei da classificação da minha escola. Infelizmente, acho o ensino fraco. O projeto tem me ajudado, porque aqui eu leio mais, melhorei em português conta Jean cujo autor preferido é Carlos Drumond de Andrade. O adolescente já decidiu: vai fazer vestibular para artes cênicas.

A coordenadora Juliana Teixeira, porém, faz questão de explicar ao jovens que a carreira de ator de teatro é instável.

Muitos deles se apaixonam por indumentária e cenografia. Eu deixo claro que a formação técnica é importante para que eles tenham um meio de sustento sólido dentro do teatro.

No caso de Simone Rocha, 18 anos, moradora do Andaraí, a suspensão do Enem foi uma grande decepção.

Eu ia fazer artes-cênicas na UniRio. Estudo muito, daria para passar com uma nota boa no Enem, mas agora não sei como vai ficar. Me apaixonei pelo teatro, mas vou ter que esperar lamenta.

Falta de apoio em casa

Os jovens contam que, desde que ingressaram no Passageiros do Futuro, sofreram uma mutação rápida: em oito meses, já que a edição Andaraí começou em março, de acordo com eles mesmos, mudaram para melhor.

Às vezes, eu tenho vontade de consertar o português dos meus amigos que não vieram para cá. Mas me controlo, porque não quero que eles pensem que me acho melhor do que eles. Mas, aqui, eu aprendi a maquiar, fazer figurino e falar melhor, isso foi uma das coisas principais diz João Anderson Pereira, 16 anos, que vai da Praça Seca, em Jacarepaguá, ao Andaraí três vezes por semana para ser um passageiro do futuro.

A história de João é interessante porque o rapaz começou no projeto sem qualquer apoio. Agora, conquistou o incentivo da mãe.

Quando começo a falar sobre o que aprendo no teatro para meus avós, meu pai e meus tios eles me mandam calar a boca. Só minha mãe me tem me apoiado relata.

Desconfiança com o teatro

Há desconfiança de muitas famílias. Segundo Juliana, os parentes dos jovens não acreditam no acesso à cultura como mecanismo de transformação social.

Alguns acham que teatro é coisa da elite. Por isso, promovemos reuniões bimestrais com os pais esclarece.

O grupo faz apresentações semanais do espetáculo Crônicas da cidade, e os ensaios são coordenados pela severidade carinhosa do aposentado Paulo Teixeira, 63 anos, que dedica três dias da semana para cuidar dos passageiros do fururo.

Quando me aposentei, resolvi estudar, não queria ficar parado. Fiz faculdade de fisioterapia, depois fui para o teatro. Eu gosto demais desses meninos, sinto que falta diálogo na casa deles e aqui eles podem conversar. De um modo geral, eu mudei muito para melhor, e eles também. A gente se acrescenta.

Na próxima terça-feira, os adolescentes e passageiros do futuro apresentarão o espetáculo Crônicas da cidade no Sesc Tijuca às 16h. A entrada é franca.