Em cartaz, filme para mudar de vida

Nara Boechat, Jornal do Brasil

RIO - Protagonizar um filme, participar da produção de uma animação ou até mesmo fazer a trilha sonora de um curta-metragem pode ser apenas imaginação na cabeça de crianças que têm entre 8 e 14 anos. A fantasia, entretanto, já é realidade para muitos alunos de escolas públicas da periferia do Rio que encontraram nas oficinas gratuitas de teatro, música e cinema uma maneira de retratar a realidade de onde vivem e incrementar seus estudos.

A coordenadora pedagógica do Ciep Adão Pereira Nunes, em Acari (Zona Norte), que possui oficinas de cinema, música, balé e artes marciais, comprovou que a motivação melhora o rendimento.

O desempenho da nossa escola melhorou muito com o projeto. Antes, estávamos entre as piores da região e hoje pulamos para uma das melhores escolas na avaliação da Secretaria de Educação relata a coordenadora, que também constatou a diminuição da evasão escolar. Muitos alunos não tinham perspectiva de vida.

De acordo com Gisele, o projeto em Acari surgiu em 2000, com o objetivo de integrar a escola ao cotidiano das crianças, além dos livros e da didática clássicos.

Um novo olhar

Seguindo o mesmo princípio de unir arte, educação e realidade, o projeto Reperiferia surgiu em Nova Iguaçu em 2004, sob a direção do cineasta Marcus Vinícius Faustini, da historiadora Cristiane Braz e do ator Anderson Barnabé, em uma parceria com o programa Bairro Escola da Prefeitura de Nova Iguaçu. Com atuação nas áreas de cinema, teatro e cultura popular, o grupo queria fazer a nova geração repensar o local onde mora.

Queremos mudar o olhar de que a periferia é só pobreza e violência e mostrar que aqui também se pode produzir arte e cultura observa Barnabé, que hoje dirige o projeto ao lado de Cristiane Braz, após Faustini deixá-los para entrar na Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu.

Pesquisa

Com o sucesso do programa, que já levou dois curtas-metragens ao Festival de Cinema do Rio, Cristiane resolveu realizar uma pesquisa interna para comprovar que o projeto não trazia somente lazer, mas também crescimento.

A avaliação foi feita em junho, usando como base as médias bimestrais de alunos de uma das escolas participantes, que cursavam a Escola Livre de Cinema, inaugurada em 2006. Para compor a amostra, cada participante indicou um colega de turma.

A pesquisa concluiu que aqueles que participam da atividade possuem um acréscimo de 0,5 ponto na média geral, comparado com os que não fazem o curso extracurricular. Além disso, isolando somente a média da disciplina de Incentivo a Leitura e Produção de Texto (ILPT) o rendimento aumentam em 0,67.

Para Cristiane, os resultados não foram surpeendentes.

O aluno vivencia a produção de texto o tempo todo, pois trabalhamos com a literatura. Esta avaliação só comprovou em números o que a gente já via no dia-a-dia.

Ex-alunos

O projeto deu tão certo que muitos dos que passaram pela escola retornam como professores ou com seus filhos. Segundo Barnabé, o projeto integra, atualmente, 120 alunos e, na Escola de Cinema, por exemplo, os três professores são ex-alunos.

Gustavo Farias Cavalcante, de 13 anos, está há dois na Escola Livre de Cinema e, no último, protagonizou a animação Velho ambicioso produzida, estrelada e editada por uma turma de cerca de 25 alunos. Para ele, a escola se tornou uma chance de buscar novas oportunidades.

Antes, eu ficava em casa sem fazer nada ou na rua brincando. Todo dia era a mesma coisa relata o menino, orgulhoso pelo trabalho desenvolvido.

Segundo os diretores, os planos são muitos e ainda há muitos projetos a desenvolver com os alunos. Além dos filmes, este ano o grupo implantou uma biblioteca e já virou parte da programação o Iguacine, o festival de cinema da cidade.