Dia de São Cosme e São Damião resiste ao tempo, unindo os cariocas

Thiago Jansen, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um dos nossos mais tradicionais hábitos populares, a distribuição de saquinhos com guloseimas em homenagem aos santos Cosme e Damião resiste ao tempo e permanece vivo em grande parte dos bairros do Rio. A data, comemorada no domingo, 27 de setembro, faz a alegria da garotada e do mercado de balas e doces, cujo faturamento alcança o auge nesta época do ano.

Para o carioca, seja ele da Zona Sul ou do subúrbio, o dia de São Cosme e São Damião é sinônimo de alegria e fartura. É uma tradição importante, porque trás à tona a fé de quem dá, ao invés da fé daqueles que recebem afirma o deputado estadual Paulo Ramos, de 64 anos, nascido e criado em Realengo, bairro da Zona Oeste, e que passou a infância correndo atrás de saquinhos com suspiro, pé-de-moleque e maria-mole.

A aposentada Rosa Marçal, 72 anos, não perde a oportunidade de agradar os pequenos no dia dos santos gêmeos. Há mais de 50 anos, ela recheia cerca de 60 saquinhos com um pouco de tudo, até ficarem bem cheinhos e os leva para crianças carentes em hospitais e orfanatos.

Sou devota dos santos, mas faço isso porque gosto de agradar às crianças. Em casa, reúno meus netos, empacotamos os doces, fazemos a distribuição e, depois, ainda os acompanho pelas ruas do nosso bairro para que eles peguem os doces que tanto adoram conta ela, moradora da Tijuca e avó de dois meninos, de 11 e 15 anos.

O casal de aposentados Jorge e Hercília Brum também faz da distribuição de doces uma cerimônia familiar. Por promessa religiosa da filha, os dois se comprometeram a dar a crianças, em todo dia de São Cosme e São Damião, durante seis anos, 100 saquinhos de doces.

Todo ano, a família se reúne para empacotar os doces e distribuir num local específico de nossa escolha. Para nós, é algo muito importante comenta Jorge, morador de Vila Isabel, que diz ter pego doces pelas ruas de Madureira quando era criança. De fato, é tão importante que estou até pensando em fazer uma promessa aos santos para ver se meu Fluminense sai dessa crise brinca.

Apesar de originalmente Cosme e Damião serem santos católicos, para muitos a religião não é um obstáculo na hora de homenageá-los. Presidente do centro espírita Nossa Senhora de Fátima, em Madureira, Edna Oliveira é prova disso. Há 40 anos ela distribui, com o auxílio dos membros de seu centro, cerca de 500 sacos de doces numa festa para mais de 1.000 pessoas.

Comecei distribuindo doces por hábito do meu marido, mas, depois que ele faleceu, continuei a tradição. Com as colaborações levantadas no centro espírita, gastamos quase R$ 1 mil em uma festa que começa de manhã cedo e vai até a noite. O importante não é o gasto, mas a alegria das crianças e a oportunidade de reforçarmos a crença.

O estudante Guilherme dos Anjos, 12 anos, morador da Vila da Penha, Zona Norte do Rio, resume o significado do Dia de São Cosme e São Damião:

É a única data em que vale a pena acordar cedo, já que quanto antes saírmos de casa, mais doces pegamos. Já teve ano de a minha mãe me deixar matar aula só para correr atrás de doces. Essa data é só alegria.