Sujeira, túmulos abertos e até ossos nos cemitérios abertos

Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A sorte da Diretoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários da Prefeitura do Rio é que mortos não reclamam. Mas parentes e visitantes dos principais estabelecimentos do gênero na cidade têm muitas queixas. Sujeira, potenciais focos de dengue, despachos de religiões afro e falta de segurança são alguns dos problemas constatados na última morada de milhares de pessoas.

Na terça-feira passada, por exemplo, um homem reclamava na recepção do São João Batista, em Botafogo (Zona Sul), de que seus familiares e amigos estavam havia mais de 40 minutos sob o sol à espera de um funcionário para descer à sepultura o corpo de um parente.

Irritado, o homem interpelava o diretor do cemitério, Jorge Oscar, que atribuiu o erro na marcação de horários a uma funcionária.

Segundo outros empregados, porém, só há dois coveiros para dar conta de uma média de 22 sepultamentos diários ali. A direção da Santa Casa, que administra os 13 cemitérios municipais do Rio há outros sete privados diz, no entanto, que o quadro de funcionários atende à demanda .

No Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, o problema é outro: sujeira acumulada e até ossos pelo chão. Algumas sepulturas servem inclusive de depósito de lixo, com isopores velhos e outros materiais.

Questionada durante a semana sobre a fiscalização da limpeza feita pela Santa Casa, com quem mantém convênio, bem como sobre os outros problemas constatados pela reportagem, a Diretoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários da Prefeitura não respondeu até as 22h de sexta-feira.

Justiça seja feita: na Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Paula, mais conhecido como cemitério do Catumbi, na Zona Norte, o problema é a vizinhança. Cercado por favelas como Mineira, São Carlos e Fallet, entre outras, o local volta e meia fica sob fogo cruzado. Na última quarta-feira, enquanto acontecia um sepultamento, a Polícia Civil fazia uma operação no São Carlos. O choro dos familiares era entremeado pelo barulho dos tiros e pelo som dos rasantes do helicóptero blindado que coordenava o ataque aos traficantes de drogas.

Nunca deram tiro na gente, mas às vezes um bandido foge aqui para dentro contou um funcionário, aparentemente calmo, mas prudentemente abrigado.

Segundo ele, a situação é pior nos cemitérios de Inhaúma e de Ricardo de Albuquerque, onde velórios à noite teriam sido suspensos por falta de segurança.

Segundo a direção da Santa Casa, porém, segurança é prioridade e todos os cemitérios são monitorados por equipes .

Quanto à (falta de) conservação das sepulturas e mausoléus no São João Batista um deles virou lugar para guardar bicicleta a Santa Casa afirma que é de responsabilidade das famílias . O que se vê, no entanto, são túmulos com buracos na tampa, rachados, sujos e até parcialmente abertos. Pichações também podem ser encontradas, como no São João Batista, onde um mausoléu em mármore próximo a onde jaz o cantor Cazuza ostenta as iniciais CV, de um grupo criminoso do Rio.

A Santa Casa diz que todas as pichações são apagadas e os focos potenciais de dengue, comuns em vazos de plantas deixados por visitantes, são fiscalizados por funcionários e agentes de saúde.

A dona de casa Julita Soares, 63, que deixa flores mensais no túmulo da irmã, no Catumbi, contesta:

Só melhora na véspera do dia de Finados. Aí eles limpam tudo.