Banheiro público, uma utopia carioca

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Mobiliário urbano instalado por empresa privada não funciona, vive fechado ou é sujo demais

Banheiro público, no Rio, é aquele cantinho, discreto ou não, onde cidadãos buscam alívio para os seus apertos. Ou então o toalete de algum bar ou restaurante, cujo dono, muitas vezes a contragosto, libera o acesso. Não conte com os banheiros instalados pela empresa ClearChannel nas ruas da cidade. Ou não funcionam, ou estão mal conservados e sujos. O da estação do metrô do Estácio está fechado. Um placa afixada na porta avisa: equipamento aguardando instalação de rede de esgoto .

Instalaram isso há uns seis meses, mas nunca funcionou. Tenho que ir ao posto de gasolina lá do outro lado diz Nélia Caczan, que vende pipoca na porta da estação. Às vezes, tem umas moças mais apertadas que vão naquele cantinho ali. A gente faz paredinha.

Na Rua São José, no Centro, há dois banheiros com o mesmo aviso. Em todos, há um número de telefone para emergência e reclamações. O funcionário da ClearChannel que nos atendeu não soube explicar o motivo da inoperância do banheiro.

O pessoal da manutenção vai sempre aí. Ele funciona direitinho. Deve ser vandalismo presumiu o funcionário.

Não é o que diz a agente de viagens Amanda Matte, cujas happy hours de sexta são sempre com os amigos ao lado do sanitário trancado. Quando precisa aliviar-se, busca o toalete do Café Gaúcho, logo ao lado. A única função do ocioso equipamento é servir de suporte a uma propaganda da campanha da prefeitura para a Olimpíada Rio 2016.

Uso o banheiro do bar da esquina. Mas, muitas vezes, ele fecha, e a gente ainda fica aqui bebendo. Trabalho aqui em frente e nunca vi esse banheiro funcionando conta Amanda. No Largo da Carioca, também tem outro que não serve para nada.

O sanitário instalado no Largo do Machado, na Zona Sul, está funcionando. Depositando-se uma moeda de R$ 0,50 tem-se acesso ao seu interior, sujo e mal-cheiroso. Uma lata usada de tinta serve de cesta de lixo. O porta-toalha de papel está quebrado e vazio, assim como o recipiente de sabonete líquido. Na Praia Vermelha, Zona Sul, o mesmo cenário de abandono. Quem se aventurar no banheiro sem checar antes suas condições se verá em situação constrangedora. A descarga não funciona e não há papel higiênico, papel-toalha e sabonete líquido. O chão é sujo.

Prefiro usar o banheiro do restaurante da esquina mesmo avalia o taxista André Nunes, cujo ponto é no Largo do Machado. Esse banheiro é sujo e ainda por cima é pago. O do restaurante é limpo e de graça.

Sem resposta

A ClearShell ganhou o direito de explorar a publicidade em pontos de ônibus e relógios de rua. Em troca, instalaria e faria a manutenção deste mobiliário urbano e construiria um determinado número de banheiros. Procuradas para explicar a natureza do contrato, firmado com a gestão anterior, a empresa e a prefeitura prometeram esclarecer a questão, mas não entraram em contato com a redação até as 22 da última sexta-feira.

Sobre a falta da rede de esgoto, que impediria o funcionamento dos sanitários, a Cedae explicou que nenhuma de suas exigências para que fosse feita a instalação dos equipamentos foi atendida. Segundo a companhia, caberia ao investidor fazer a ligação dos sanitários com a rede de esgoto; não poderiam usar dinheiro público para beneficiar uma empresa privada que obterá lucros com o equipamento.

A Cedae alega que participou de uma série de reuniões com representantes da ClearChannel, mas as exigências foram ignoradas pela empresa.