Baiano curtido na carioquice de uma agitada Ipanema

Márvio dos Anjos , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Humorista e cineasta, Claudio Manoel declara amor ao bairro que o adotou no Rio

Não é que o humorista Cláudio Manoel, do grupo Casseta & Planeta, seja um cara que circule pouco no Rio. Mas há um bairro do qual ele não consegue se afastar por muito tempo, desde que chegou da Bahia, na infância.

Sou totalmente ipanemocêntrico. Meu negócio sempre foi esse bairro diz o humorista de 50 anos, que mora na Lagoa e trabalha num escritório próximo à Livraria da Travessa, em Ipanema, onde concedeu a entrevista como segundo convidado da seção Meu mapa no Rio, que o caderno Cidade publica sempre aos sábados.

Eu vim bem pequeno de Salvador e meus pais foram morar num apartamento perto do Morro do Cantagalo, onde já tinha tiro e bandidagem. Então, como desde cedo eu convivo com isso e não tenho aquela nostalgia do Rio pacífico, agora que estou na Lagoa a cidade anda supertranquila...

O baiano, que já era conhecido pelas tiradas do programa humorístico que o marcou com o personagem Seu Creysson, mostrou neste ano para o grande público uma outra faceta: a de documentarista, ao se associar a Micael langer e Calvito Leal na direção de Simonal Ninguém sabe o duro que eu dei, em que conta a história do cantor Wilson Simonal, que caiu no ostracismo após ser associado ao Dops, um dos principais departamentos de repressão do período militar.

A produção de um documentário tem tudo a ver com esse jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, que depois se bandeou para o humor através da revista humorística Casseta Popular e depois para os trabalhos televisivos. Feliz com a repercussão do longa, ele não desiste de divulgá-lo: foi devidamente vestido com a camisa do filme que ele apareceu para a sessão de fotos desta página.

Convidado a falar do Rio de Janeiro, ele demonstra um total horror à falta de civilidade do carioca, no que diz respeito à desobediência das leis.

Sou contra todos que ajudam a tornar a lei algo para otários afirma o humorista.

Crime mais romântico

Sobre a violência na cidade, apesar de ter mencionado a relativa tranquilidade, Claudio conta que gostava da época de adolescência, em que o crime era mais romântico , nas suas palavras.

A primeira coisa é que não tinha fuzil antes, nem contrabandista de armas. O cara que queria uma arma chegava num armeiro, que fazia um leasing do revólver: quem comprava para assaltar tinha que dar parte do roubo para o cara durante um tempo. E no fim, o ladrão não tirava onda. As senhoras passavam e o cara até baixava o rosto, envergonhado de estar no desvio. Hoje o cara pega o fuzil e tira onda mesmo.

Fã de Mart'nália e Zeca Pagodinho, o humorista recomenda como padaria o Talho Capixaba a melhor do Hemisfério Sul, na sua opinião. Ciclista de fim de semana, gosta de percorrer toda a ciclovia até chegar ao Museu de Arte Moderna no fim do Aterro do Flamengo. Conheça o mapa dessa figuraça.

Sabor do Rio:

O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, o suco de tangerina do Balada, a limonada suíça do Polis (Ipanema), os sorvetes do Felice (Rio Design Leblon) e tudo da Roberta Sudbrack.

Livraria:

Travessa (Ipanema)

Teatro:

João Caetano e Carlos Gomes pelos festivais do CAP UFRJ, que nós, alunos, organizávamos nos anos 70. O Municipal pela belezura pseudo-parisiense e o Ipanema, por ter sido palco das vitoriosas temporadas dos nossos shows ancestrais: Eu vou tirar você desse lugar, Preto com buraco no meio e A noite dos Leopoldos.

Museu/Casa de Cultura:

Instituto Moreira Salles.

Padaria:

Talho Capixaba.

Feira:

A da Frei Leandro, aos sábados.

Melhor pôr-do-sol:

Por toda a história e pelos meus próprios testemunhos: Posto 9

Maior furada do Rio:

O amor carioca pela bandalha

Dica secreta:

Tem um lugar incrível, pertinho do Rio, com cachoeira, passarinho e sossego. Mas é secreto. Se contar enche de jornalista, artista da Globo... e sabe como é essa gente...

Fora da Zona Sul:

Santa Teresa. Destaque pro Chez Marcianita, Rio 180 Graus, Bar do Mineiro, Asia e Cine Santa).

Rio Antigo:

As coisas bacanas da Lapa e, obviamente, o Real Gabinete Português de Leitura.

Maior saudade:

Bussunda. O Rio continua lindo, mas com ele era mais divertido e inteligente.

Alma do Rio:

Romário e Zeca Pagodinho

Beleza do Rio:

Cleo Pires

Quando você sabe que está no Rio...

Quando mesmo no engarrafamento a gente acha a vista linda.

Quando você sabe que não está no Rio?

Quando não vejo nenhum carro estacionado nas calçadas.

Melhor papo:

Valéria, minha alma gêmea e capricorniana.

Quem merece Choque de Ordem?

Todo mundo que debilita a qualidade de vida da coletividade. Quem está no crime, quem faveliza, quem constrói na ilegalidade, quem suja, quem estaciona em calçada, quem terceiriza a bandalha com manobrista, quem compra pirataria de camelô. Aqui, ser vanguarda é obedecer lei.

Lugar no estádio:

Uma das vistas mais lindas do Rio é quando abre a porta do elevador que leva para a Tribuna do Maraca. É uma vista com áudio. A porta vai abrindo e descortinando a massa (rubro-negra) ... é de arrepiar.

Melhor comida de rua:

Queijo coalho na praia

Transporte alternativo:

Bicicleta, também conhecida atualmente como bike.

O que falta no Rio?

Civilidade.

O que sobra no Rio?

Vistas deslumbrantes. O poeta Mário Quintana dizia que gostava de entrar nos túneis do Rio, para descansar do excesso de paisagem.

Se não for o Rio, só...

...meu canto no sul da Bahia.

Rua bem carioca:

Todas as que têm mão invertida nos horários do rush..

Aventura carioca:

Desenvolvi um roteiro, a Cadeirada em Paulista : começa pela Floresta da Tijuca, vai pra Prainha/Grumari e finaliza rangando no Bira, com vista para micos, tucanos e Restinga de Marambaia. Amazônia, Caribe e Pantanal numa só tacada. É mole ou quer mais ?

Som que lembra o Rio:

Mart'nália cantando.

Frase que define o Rio:

Ih, o cara, aí...