Crack no asfalto choca Copacabana

Ana Paula Verly, Jornal do Brasil

RIO - Às 16h30 de terça-feira, oito moradores de rua, todos com aparência de menores de idade, estavam amontoados no chão da esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Sá Ferreira. Indiferentes ao movimento frenético de pessoas, carros e até uma dupla de policiais militares, em guarda do outro lado da rua. Nesse ambiente, um deles, com o boné no rosto, acende uma pedra de crack. A droga não tem cheiro e não faz fumaça. Enrolada, a tampa de alumínio e um copo de refresco de guaraná fazem as vezes de um cachimbo discreto.

Não é discreta, porém, a existência de uma cracolândia em funcionamento durante as 24 horas do dia naquele ponto. Garotos e garotas definham em meio ao lixo, camelôs e tráfico de drogas típicos de entradas de favelas. A morte chega quase sempre após dois anos de consumo. Moradores e lideranças comunitárias pedem abrigos para acolher e tratar os chamados craqueiros . Porque, quando a Guarda Municipal e a Polícia Militar incomodam, o grupo arrasta os cobertores até a boca do túnel da Raul Pompéia, no quarteirão seguinte, onde outros aguardam prostrados em colchonetes.

O problema persiste apesar da mobilização no asfalto e na favela. O presidente da Associação de Moradores do Cantagalo, Luiz Bezerra do Nascimento, repara que vi gente que era gente boa, trabalhadora e virou um desses mendigos .

Tem que haver uma ação social para o tratamento e a recuperação deles. Não há outra saída. Os assistentes sociais levam para o abrigo, mas, três dias depois, eles estão de volta. O problema é muito grave. Em todo pé de comunidade, esse pessoal se encosta.

A cracolândia do Pavão existe há cerca de dois anos. No início, ficava em cima do túnel da Raul Pompeia. No fim do ano passado, a PM e a prefeitura deram fim ao ponto de venda e uso de crack, que costumava reunir, ao mesmo tempo, até 50 viciados, que acabaram descendo para o asfalto. Com a migração dos craqueiros é que o problema se tornou um escândalo, como define a aposentada Carmem Carvalho, 67 anos, moradora há 40 anos da rua que corta o acesso ao Pavão. Carmem também qualifica como desumano o descaso com a situação.

Se você ficar meia hora aqui, entra em pânico. Outro dia havia 10 deitados na rua. Nunca teve tanto. A guarda encosta o cacetete , manda andar e eles vêm dormir aqui. Tinha que tirar esses menores da rua. Lugar de menor não é na calçada. Gente não é bicho revolta-se Carmem.

A síndica de um prédio da Sá Ferreira entregou ao subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos, em março, um abaixo-assinado com 722 assinaturas e um pedido de providências em relação à população de rua. Para ela, a solução tem de ser hospitalar. Um dos signatários, que também não quis se identificar, coloca a culpa no Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca), que só permite a internação em abrigos públicos de menores infratores.

Por que com morador de rua não pode haver regra, leis e disciplina? É uma hipocrisa revoltante. Tudo de ruim tem aqui na Sá Ferreira. Se a prefeitura e o estado não conseguem tirar camelô, carro da calçada, sujeira, tráfico e prostituição da esquina, como é que vão conseguir tirar menor drogado protegido pela lei? questiona.