Má conservação das calçadas: faltam pedras no meio do caminho

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO - Não tem uma pedra (portuguesa) no meio do caminho. Na verdade, não há várias delas. Basta uma volta por calçadas da cidade para observar a péssima conservação dos passeios públicos. E foi em um buraco deixado pela ausência do calçamento que o diretor de teatro e dramaturgo Augusto Boal, de 78 anos, tropeçou e caiu. Quebrou um dedo da mão e ganhou um corte no queixo. Acidente comum nas ruas do Rio, dizem os ortopedistas, cujos consultórios recebem milhares de pacientes queixosos das calçadas esburacadas.

As calçadas irregulares aumentam o risco de queda das pessoas, ainda mais se forem idosas avisa o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Seção RJ), Vincenzo, Giordano.

O buraco que causou a queda de Boal, em frente à sede do grupo de teatro dirigido pelo dramaturgo, na Lapa, foi tapado com cimento. Segundo a Secretaria Municipal de Obras, a conservação das calçadas é responsabilidade dos proprietários dos imóveis, apesar de ser um equipamento público. Mesmo quando o reparo tem de ser feito com pedras portuguesas, a prefeitura não intervém nessa operação. Cuida apenas das calçadas das áreas públicas do Rio Cidade, calçadão das praias e os canteiros centrais. A subprefeitura de cada região deve fiscalizar a manutenção das calçadas e, se for o caso, notificar o proprietário. Como há uma deficiência no trabalho de fiscalização, os reparos são mal feito ou simplesmente não são.

Nós é que tapamos com cimento contou Clébio Eduardo, que trabalha em uma loja de venda de móveis de escritório na Rua Mem de Sá, próximo ao Teatro do Oprimido. Muitos desses buracos são os garis da Comlurb que abrem, com a pressão da água da mangueira que usam para lavar a calçada. Quem cai muito neles são os travestis. Eles usam cada saltão alto! Na última sexta teve um que se estabacou feio.

A Comlurb informou que a mangueira usada na lavagem das ruas não tem pressão para arrancar as pedras portuguesas.

Aproximadamente a 100 metros dali, outro buraco, esse bem mais perigoso, ameaça a integridade física dos pedestres. Na verdade, um bueiro sem a tampa, próximo aos Arcos da Lapa, sem qualquer sinalização para o risco que oferece. O estudante Carlos Roberto Miranda, de 22 anos, mora no Bairro de Fátima e passa todos os dias pelo local. Conta que volta e meia o bueiro aparece sem a tampa, que, segundo ele, é roubada para ser vendida a ferros-velhos.

Eles tinham de trocar por tampas de cimento. Já teve caso de gente que se feriu caindo nesse bueiro sugeriu.

Polêmica sobre as pedras

O aposentado Paulo Alves, de 72 anos, quase tropeçou em um buraco quadrado, cuja tampa também parece ter sido retirada, no calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana, na altura da Praça do Lido. Alves, morador do Méier, acha péssimo o estado de conservação das calçadas cariocas. Considera que as pedras portuguesas são o pior material para ser usado nelas.

Elas soltam à toa. Além de deixar um buraco, a gente pode acabar tropeçando nelas. Você já passou na calçada da Central do Brasil? É uma vergonha. Só tem buracão critica.

Apesar das crateras abertas nas calçadas por causa de reparos malfeitos, a aposentada Lucia Costa, de 58 anos, defende a permanência da pedra portuguesa. Tanto que sempre toma a iniciativa de convocar o porteiro do prédio, na quadra da praia da Rua Ronald de Carvalho, em Copacabana, para recolocar as pedras portuguesas empurradas pela raiz de uma árvore.

Não é porque a conservação é ruim que temos de abdicar de uma tradição do bairro, que são as pedras portuguesas. Prefiro as pedras ao cimento que o Cesar Maia colocou na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Aquilo, sim, machuca o pé da gente reclama.

Alvo de uma saraivada de críticas quando resolveu substituir as tradicionais pedras portuguesas por cimento, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, o ex-prefeito defende sua decisão. Diz que o tempo deu razão ao resultado da obra do Rio Cidade realizada em sua gestão.

Separei as calçadas tombadas com pedras portuguesas das demais. Fiz uma seleção de locais onde a faixa etária fosse a maior. E substituí. O caso exemplar foi a Nossa Senhora de Copacabana. A reação foi grande, mas depois vieram os elogios explica.