Curso aproxima policiais militares e a população no Rio

JB Online

RIO - Pela primeira vez na história da corporação, praças, cabos e sargentos estão sendo treinados para atuar de maneira mais humana junto à comunidade. Desde o início deste mês, cerca de 250 profissionais da Secretaria de Segurança estão frequentando as aulas do curso Capacitação para Interação e Mediação Comunitária e aprendendo táticas voltadas para a sensibilidade das interações sociais.

O treinamento, ministrado pela Fundação Escola de Serviço Público (Fesp), acontecerá até o final de março. Mas a expectativa da PM é capacitar até dezembro 2.500 policiais usando como princípios a dinâmica de interação e atividades lúdicas. O curso é voltado para profissionais que atuam nas rádios patrulhas e, futuramente, no policiamento ostensivo. Uma vez por semana, quatro turmas de 60 militares trabalham a sensibilidade, se abraçando, discutindo as relações humanas e questionando a visão que a sociedade tem da corporação. Todos os alunos têm um objetivo em comum: estar cada vez mais próximo da população.

- A capacitação nasceu de um encontro com o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. Notamos a necessidade de qualificar o policial, que precisa ter uma visão de prestação de serviço de segurança ao cidadão. Questões como a autoestima, o papel do PM na sociedade e a relação com a família estão sendo discutidas no curso. Nosso objetivo é fazer com que a atitude do profissional seja modificada na rua, fazendo com que haja uma melhor aproximação entre o que o policial militar desenvolve com o policiamento ostensivo e a forma como a sociedade encara a atividade deste profissional - explica o presidente da Fesp, Cláudio Mendonça.

O terceiro sargento da Polícia Militar do Rio, Airton José da Costa, aprovou a iniciativa do governo do Estado em criar um curso dedicado ao relacionamento entre o cidadão e o policial. Na corporação há 16 anos, Airton está aprendendo a ser mais compreensivo para oferecer um bom atendimento à população. A mudança no comportamento do policial não está afetando apenas seu desempenho na PM. As aulas, que incluem sessões de abraços e momentos de descontração, estão ajudando no relacionamento do sargento com sua família.

- Se não procurarmos entender a dificuldade da pessoa que estamos atendendo, certamente criaremos uma imagem ruim. Através desse curso, aprendi a ter mais paciência. Alguns cidadãos nos tratam de forma agressiva. Se eu fizer o mesmo, atrapalhará meu trabalho. Abraçar meus colegas na capacitação foi importante para criar contato com outras pessoas. Por causa do nosso dia-a-dia, acabamos nos afastando até de nossos familiares. A qualificação está fazendo com que eu mude de atitude - conta o policial, que trabalha no batalhão de São Cristóvão.

Nos trinta dias de capacitação, os futuros profissionais humanizados passam por quatro módulos. Além de workshops, os conteúdos comportamentais e motivacionais são divididos em relacionamento interpessoal, atendimento ao cliente, comunicação e motivação profissional e pessoal. Os policias são indicados por seus comandantes para participar da qualificação. Para não prejudicar as rotinas dos batalhões, foi desenvolvida uma escala de serviço especial. Os profissionais não perdem seus dias de descanso e ainda ganham meia folga por cada aula assistida.

Para o instrutor César Augusto Lessa Pinheiro, psicólogo pós-graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos e professor da Universidade Estácio de Sá, o curso oferece ao policial militar a oportunidade de valorizar os papéis que representa para o Estado, repensar suas práticas e se fortalecer como pessoa.

- O PM passa a ver o seu trabalho como uma atividade de prestação de serviços. Na história da Polícia Militar do Rio, nunca houve uma abordagem desta natureza. Em algumas aulas, trabalhamos a questão da aproximação e do contato físico, pois os profissionais são treinados e preparados para o distanciamento. O cotidiano do policial está muito vinculado com a observação para estar pronto para uma ação. Quando propomos o abraço, o toque e o riso, a intenção é fazê-los experimentar situações prazerosas - afirma.

O curso Capacitação para Interação e Mediação Comunitária , realizado pela Secretaria de Segurança, acontece no auditório da Fundação Escola de Serviço Público (Fesp), às segundas, terças, quartas e sextas-feiras, das 8h às 12h.